De acordo com o “Washington Post”, Donald Trump revelou informações altamente confidenciais ao ministro russo das Relações Exteriores, Sergey Lavrov e membros de sua delegação, durante uma reunião em 10 de maio, no Salão Oval.
Em uma reportagem de 15 de maio, o “Post” informou que os funcionários da Casa Branca tentaram conter os danos removendo comentários supostamente inapropriados de Trump de memorandos internos.
Então, como o jornal conseguiu a história?
A reportagem cita “atuais e antigos funcionários do governo”. Depois, repórteres deram mais detalhes, descrevendo uma fonte como “ex-funcionário de contraterrorismo que trabalhou com a equipe de Segurança Nacional de Trump”.
Tradução: o público soube porque mais de um membro da comunidade de Inteligência estava disposto a vazar a informação.
Como professor e diretor do programa de mestrado em Inteligência Aplicada na Universidade de Georgetown, estudo, ensino e escrevo sobre segurança interna e aplicação de Inteligência. Tenho curiosidade em saber por que funcionários divulgam informações secretas e como isso afeta seu trabalho.
Vazadores e delatores frequentemente são motivados pela falta de confiança na cadeia de comando. Eles denunciam o delito e expressam sua discordância através do vazamento de informações para a mídia ou grupos. Um exemplo de irregularidade particularmente proeminente hoje é a interferência política nas atividades de Inteligência.
A confiança é minada quando o recolhimento ou o compartilhamento de Inteligência influencia a política ou é influenciado pela política.
A politização de baixo para cima acontece quando membros das agências atingem indivíduos ou questões por razões políticas. Por exemplo, podem ir atrás de opositores políticos para manter ou aumentar o nível de influência no governo.
J. Edgar Hoover era famoso por usar os recursos do FBI para interferir na política e manter o cargo como chefe da polícia federal por 48 anos.
A politização de cima para baixo acontece quando estrategistas políticos — todo o caminho até o presidente — usam Inteligência e investigações para apoiar sua agenda política. Um estudo de caso famoso é a avaliação de Inteligência em 2002 sobre armas de destruição em massa (ADM) no Iraque. O então vice-presidente Dick Cheney teria pressionado a CIA a produzir rapidamente um relatório confirmando a existência de ADM. Embora as provas fossem tépidas, Cheney e George W. Bush usaram isso para justificar a invasão dos EUA ao Iraque.
Outro exemplo famoso vem do presidente Richard Nixon, que obstruiu a investigação especial no escândalo de Watergate.
Como isso se relaciona ao encontro de Trump e Lavrov?
Este último drama político ocorreu em meio à investigação sobre o possível conluio entre a campanha de Trump e a Rússia. E uma semana após a demissão do diretor do FBI James Comey elevar a tensão entre Casa Branca e agências de Inteligência.
A demissão de Comey chacoalhou o FBI, estimulando alguns funcionários a manifestar anonimamente a intenção de pagar na mesma moeda.
Em fevereiro, Trump acusou o FBI de vazar informações sobre a investigação da Rússia. E, em março, manifestou sua crença de que a Trump Tower fora grampeada pelo ex-presidente Obama com a ajuda do Departamento de Justiça.
A hostilidade entre Trump e as agências de inteligência aumentou por uma série de decisões da Casa Branca. Em 31 de janeiro, Trump demitiu Sally Yates, procuradora-geral interina, após ela informar a Casa Branca que o então conselheiro de Segurança Nacional, Michael Flynn, mentira sobre seus contatos com os russos.
Então, o procurador-geral Jeff Sessions se recusou a participar de qualquer investigação sobre a Rússia nas eleições porque omitira dois encontros com o embaixador russo.
Além disso, o deputado Devin Nunes, presidente da Comissão de Inteligência da Câmara, se retirou da investigação porque estava sendo investigado pela Comissão de Ética da Câmara por revelações não autorizadas.
Finalmente, Comey foi demitido após pedir mais recursos para acelerar a investigação.
Os acontecimentos minam a percepção de integridade no processo investigativo — não apenas pelo público em geral, mas por funcionários da Inteligência. Neste clima, seria esperado que mais informações confidenciais fossem reveladas. E há a possibilidade da intensificação do cabo de guerra no qual vazadores deliberadamente prejudiquem a Casa Branca, enquanto Trump tenta fazer o mesmo com a investigação russa.

