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Violência e impopularidade desafiam inclusão política das Farc

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RIO E BOGOTÁ — Em mais uma decisiva etapa do processo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), aquele que foi um dos homens mais procurados do país já concorre oficialmente à Presidência, com um tortuoso caminho de obstáculos pela frente. Ex-líder da guerrilha, Rodrigo Londoño, conhecido como Timochenko, representará a Força Alternativa Revolucionária do Comum, partido que mantém a mesma sigla do grupo armado e apresenta uma lista de ex-combatentes como candidatos às eleições legislativas de março, antes das presidenciais de maio. A incorporação política enlaça com um teste-chave o pacto firmado em 2016 com Bogotá, mas é desafiado pela histórica impopularidade da antiga guerrilha, alimentada pelas críticas da extrema-direita; pelos assassinatos em série de ex-rebeldes; e, ainda, pelo descumprimento do Estado de promessas econômicas às populações rurais em ressocialização.

Figura-chave nas negociações de paz, Timochenko espera conquistar votos nos bairros mais pobres e marcados pelo crime da capital colombiana. O lançamento da candidatura, no sábado, aconteceu no estacionamento de um centro comunitário, claramente voltado às classes socialmente desfavorecidas. A sua vitória, no entanto, é pouco provável, segundo apontam as pesquisas de intenção de voto, mas dez cadeiras do Congresso já estão reservadas aos membros do seu partido — garantidas pelo pacto com o governo do atual presidente, Juan Manuel Santos — e outras mais poderiam ser obtidas, dependendo da quantidade de votos que recebam. O partido Farc promete “unidade, solidariedade, irmandade e honestidade”, deixando o militarismo marxista para trás num momento de forte rejeição ao político.

Segundo o analista de conflitos Pedro Santana, as lembranças deixadas por meio século de guerra ainda são a maior dificuldade para o novo partido nas urnas, embora o seu índice de impopularidade — outrora de 95%, e hoje em torno de 84%, três pontos percentuais a menos do que a média dos outros partidos — já baixe gradualmente. Outro desafio à plena reintegração são os atos de violência contra ex-rebeldes e seus familiares, dos quais 56 já foram assassinados nos 14 meses desde a assinatura do acordo de paz, diz o especialista.

— As Farc cumprem estritamente com a sua parte do processo de paz, e seria muito importante para a legitimidade do partido obter mais cadeiras diretamente da população, sem depender apenas das dez oferecidas pelo acordo — explicou Santana ao GLOBO. — Mas um dos obstáculos é o seu histórico criminoso e letal, e a população civil agora tem uma opinião negativa em relação às suas pretensões políticas. Outro é o assassinato de ex-combatentes e familiares desde a assinatura do pacto, que afetam diretamente todo o processo.

A tensão faz lembrar a tentativa de desmobilização da guerrilha na década de 1980, quando centenas de políticos da esquerda afiliados ao partido União Patriótica (UP) morreram nas mãos de distintos grupos. Recentemente, dois ex-combatentes foram mortos a tiros enquanto faziam campanha para um candidato. E o fantasma da violência se fez muito presente no fim de semana: no total, sete policiais morreram e outros 41 ficaram feridos em dois atentados com bombas , e mais sete civis se feriram em outra explosão. Embora provavelmente os responsáveis sejam outras facções, os ataques expõem a longa lista de desafios de segurança no país.

Num país traumatizado pelo conflito civil, o projeto político de reconciliação, rechaçado em referendo popular de outubro de 2016, é alvo de forte pressão negativa do ex-presidente e senador Álvaro Uribe. O seu partido promete denunciar a candidatura de Timochenko — a qual classifica de “afronta” — ao Tribunal Penal Internacional e à Organização de Estados Americanos, com a intenção de bloqueá-la. Mas, para Santana, as probabilidades de êxito para os opositores seriam mínimas.

— É a estratégia da extrema-direita, mas estes órgãos, embora tenham feito críticas durante as conversas de paz, não questionam a reincorporação. É consenso internacional que, em negociações políticas, as garantias partem de um processo normal num Estado democrático — diz o analista. — Do ponto de vista político, o processo de paz está blindado e já é irreversível. O que o afeta, no entanto, é o incumprimento do Estado nas promessas de ordem econômica, como as políticas de concessão de fundos e títulos de propriedade às famílias camponesas sem terra, que devem se reincorporar à sociedade com projetos próprios.

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