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Análise: Eleições são a hora da verdade para as Farc

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As próximas eleições presidenciais, das quais as antigas Farc vão participar com candidato próprio, serão — mais do que um acontecimento na história política da Colômbia — a primeira prova da ex-guerrilha diante do eleitorado. A votação que Rodrigo Londoño, o Timochenko, obtiver no primeiro turno presidencial mostrará as possibilidades imediatas do recém-criado partido que ele representa: a Força Alternativa Revolucionária do Comum (Farc).

Segundo três pesquisas que em dezembro mediram as intenções de voto, não mais de 2,1% dos eleitores votariam em Timochenko, que lançou sua candidatura no fim de semana. Esses são os números da pesquisa da Invamer. As outras duas lhe deram 1% (Yanhaas) e 0,8% (Guarumo) das intenções de voto. Como em seus tempos de guerrilha, as Farc como partido sustentam que as pesquisas não medem sua verdadeira força eleitoral. E isso será confirmado ou desmentido nas próximas eleições para o Congresso e a Presidência da República.

Por enquanto, o ponto de partida para as Farc é o que indicam as pesquisas de opinião; e, por elas, se Timochenko superar nas eleições de maio as intenções de voto mais altas que lhe deu uma pesquisa (2,1%), o partido político da ex-guerrilha poderia dar-se por satisfeito. Sobretudo levando-se em conta que a imagem das Farc continua em baixa: a aprovação fica entre 5,7% e 17%, de acordo com diferentes pesquisas.

O que não deixa de chamar a atenção é que, mesmo com esses números desfavoráveis, Timochenko tem mais intenções de voto do que alguns dos seus mais ferrenhos adversários políticos. Na pesquisa da Invamer, de dezembro, ele estava à frente do ex-procurador Alejandro Ordóñez (agora parte da coalizão de direita), que tinha 1,2%; e do ex-ministro da Defesa Juan Carlos Pinzón, com 0,9%.

As pesquisas, como dizem os especialistas, são uma fotografia do momento e estão sujeitas a muitas variáveis e altos e baixos ao longo de uma campanha política. Mas é evidente que, se a porcentagem de votação das Farc for inferior ao que até agora projetaram as pesquisas, a ex-guerrilha sairia muito debilitada de sua estreia eleitoral. Seria paradoxal que isso ocorresse numa disputa cuja relevância estará marcada por ser a primeira de que participa, como organização legal, aquela que chegou a ser a guerrilha mais poderosa da Colômbia.

A possibilidade de as Farc se converterem ou não num partido político competitivo estará determinada, precisamente, pelos resultados que alcancem nas eleições legislativas (de março) e presidenciais (de maio), porque essas serão suas bases para futuras disputas eleitorais.

O que não é aceitável é que o partido, que nasceu de um acordo de paz, seja marginalizado na política por causa da violência, como ocorreu nos anos 1980 e 90 com a União Patriótica (UP, partido formado durante desmobilização de guerrilheiros). E isso vem ao caso porque, segundo a Comissão de Acompanhamento e Verificação, integrada pelo governo e a ex-guerrilha, 33 ex-combatentes foram assassinados desde a assinatura do acordo de paz, em novembro de 2016.

Pelo menos até agora, as investigações das autoridades indicam que a ameaça mais clara para as Farc é o Clã do Golfo (organização paramilitar), a quem o Ministério Público imputará os assassinatos de dois ex-guerrilheiros em Peque, na Antióquia, quando faziam campanha para o candidato à Câmara daquela localidade. O grupo, de acordo com denúncias do partido de Timochenko, pôs em prática em Quibdó uma campanha de intimidação contra as sedes das Farc, ao silenciar ali vários militantes. Vale lembrar que Timochenko reconhece que a segurança dos membros de seu partido também depende deles mesmos. Mas os atos de violência contra comissões políticas das Farc em Antióquia, Chocó, Arauca e Bogotá são um alerta precoce para evitar que se repita a história da União Patriótica, cujo extermínio contribuiu para que as Farc permanecessem em guerra por pelo menos mais 25 anos.

Como disse o ex-comissário para a Paz Sergio Jaramillo, a história de 25 acordos de paz no mundo nos últimos 30 anos mostra que, quando houve inclusão política, a violência não se reciclou, o que ocorreu onde a participação de ex-rebeldes armados foi impedida.

No fim das contas, com o uso da violência para reduzir as Farc na política, o país perderia mais do que a Força Alternativa Revolucionária do Comum. Pelo menos, isso é o que a História mostra.

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