BERLIM - O método de comparar Hitler a governos autoritários, com o objetivo de desacreditar o adversário, vem sendo cada vez mais usado por altos escalões do poder em vários países. Depois que Holanda, Alemanha e Dinamarca impediram eventos de propaganda eleitoral junto às minorias turcas em seus territórios, o presidente Recep Tayyip Erdogan pôs as relações entre a Turquia e a União Europeia (UE) numa profunda crise ao lançar mão do que para os alemães é o pior tipo de ofensa possível. Erdogan comparou a chanceler federal alemã, Angela Merkel, e o primeiro ministro holandês, Mark Rutte, a Hitler — insulto tão grave que desencadeou uma indignação nacional nos dois países.
— Rutte terminou tirando proveito do bombardeio verbal vindo de Ancara, o que pode ser visto no resultado da eleição — comentou Hajo Funke, cientista político da Universidade Livre de Berlim.
A historiadora Sabine Schiffer, coautora do livro “Antissemitismo e islamofobia”, lembrou ainda que a tática é uma enorme distorção histórica, além de uma banalização do Holocausto e uma ofensa às vítimas e seus descendentes. Além disso, continuou ela, revela uma característica de fraqueza e de falta de argumentos concretos:
— Erdogan tenta desviar as atenções do tema concreto do momento. Com isso, quer evitar um debate de conteúdo sobre o sistema que planeja implantar na Turquia.
Mas ele não é o único. O ex-primeiro ministro italiano Silvio Berlusconi reagiu a críticas dos social-democratas no Parlamento Europeu, ainda nos anos 1990, chamando seu então presidente e atual candidato ao governo alemão, Martin Schulz, de nazista. No auge da crise da Grécia, jornais locais atacavam Merkel com montagens de fotos suas usando o bigode de Hitler.
— Até que ponto é correta uma comparação da política da Rússia atual com a da Alemanha nazista, feita recentemente pelo presidente ucraniano Petro Poroschenko? Embora a Rússia tenha anexado a Crimeia, como Hitler anexou a então Tchecoslováquia, em 1938, a comparação é absurda e revela a fraqueza de argumentos do seu autor — disse a historiadora russa Irina Cherbakova.
Para ela, a analogia também é uma tentativa de banalizar o regime de Hitler, já que a anexação da Crimeia não foi acompanhada de execuções em massa como em 1938.
Segundo o jornal “Neue Zürcher Zeitung”, não só Erdogan caiu na cilada da chamada “lei de Godwin”, pronunciada pelo advogado americano Mike Godwin, que diz que quanto mais dura uma discussão, maior é a chance de que termine com uma comparação com Hitler e os nazistas. Nos debates da internet — onde comparações com o ditador nazista são frequentes — a cada minuto essa lei da comunicação moderna é confirmada.

