WASHINGTON - O discurso radical do presidente americano, Donald Trump, traduziu-se em números: sua proposta de Orçamento foi considerada a mais polêmica em três décadas e vista como prejudicial às pessoas mais pobres do país, grande base de eleitores do republicano. Até o forte aumento dos valores para a Segurança foi questionado por partidários do presidente, sempre mais próximos dos militares. Especialistas afirmam que o projeto não passará desta maneira, algo confirmado por muitos políticos:
— A proposta do presidente não é o nosso ponto de partida — disse o congressista Steve Stivers, de Ohio, presidente do Comitê Republicano Nacional. — Me considero um grande defensor dos militares, mas acredito que alguns dos cortes são um pouco drásticos em certos setores.
Dos 17 grandes setores do Orçamento americano, apenas três apresentaram ganhos de recursos em relação aos números do ano passado: Defesa, Segurança Nacional e Apoio aos Veteranos. Todos os demais teriam cortes, alguns drásticos. Isso levaria muitos programas a serem eliminados, como ações sociais que dão votos a políticos da base de Trump. A forma como algumas destas reduções foram apresentadas gera reações imediatas pelo país:
— Não há evidências de que (o programa de alimentação para alunos da pré-escola) realmente melhora o desempenho educacional — afirmou Mick Mulvaney, Diretor de Gestão e Orçamento do governo.
Os fortes gastos na área ambiental — que seria reduzida em 31% e poderia levar a uma demissão de um em cada cinco servidores da Agência de Proteção Ambiental (EPA) — e na área cultural (as emissoras públicas e educativas dos EUA praticamente ficariam sem recursos) geraram protestos imediatos de grandes grupos de americanos. Apesar de Trump manter intactos gastos com Previdência e alguns programas, como de medicamentos, os democratas classificaram a proposta como “cruel”.
— O Orçamento ironicamente impõe os cortes mais pesados nos programas que mais beneficiam os eleitores de Trump — afirmou ao GLOBO David Schultz, professor da Hamline University, de Minnesota.
Mulvaney, da Casa Branca, afirmou que o grande objetivo deste Orçamento é priorizar o gasto interno no país, mas além do corte em programas sociais, a redução de valores para setores que podem ativar a infraestrutura e a economia, como o transporte, foi considerada um paradoxo. Mas a maior crítica foi o aumento de 10% para os militares e, ao mesmo tempo, a redução em 31% da verba do Departamento de Estado, que faz o chamado “soft power”, ou seja, a influência baseada em diplomacia e ajudas humanitárias.
— Estou muito preocupado que os cortes profundos em nossa diplomacia prejudiquem os esforços para combater o terrorismo, distribuir ajuda humanitária e promover oportunidades para os trabalhadores americanos — disse o congressista republicano Ed Royce, presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Representantes.
Um grupo de mais de cem líderes religiosos enviou carta aos dirigentes dos dois partidos pedindo apoio aos recursos para o Departamento de Estado e a Agência Americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), principal órgão de ajuda do país.
O senador Marco Rubio, republicano da Flórida, também criticou. “Os cortes nestes programas minam a capacidade dos Estados Unidos de manter nossos cidadãos seguros”, afirmou em comunicado.
Erick Langer, professor da Georgetown University, afirma que esta proposta é a mais polêmica desde a gestão de Ronald Reagan (1981-89), quando o também republicano chegou a propor a eliminação de duas secretarias inteiras. O acadêmico diz que ela não será aprovada desta maneira e que parece ter sido exageradamente radical para forçar uma negociação.
— Mas Trump não tem o capital político nem a habilidade de negociar de Reagan. Este Orçamento é incompatível com os EUA e com certeza será muito modificado pelo Congresso.
A proposta de Trump ainda destina US$ 2,6 bilhões a tecnologia e infraestrutura de segurança nas fronteiras, incluindo o início da construção do muro entre os EUA e o México. Mas o valor para a polêmica obra, dependendo de outras realocações, pode chegar a US$ 4,1 bilhões — uma parte pequena do custo total, estimado entre US$ 22 bilhões e US$ 30 bilhões. O Orçamento ainda reserva US$ 314 milhões para contratar e treinar agentes da Patrulha de Fronteiras e funcionários da Imigração e da Alfândega. Outros US$ 1,5 bilhão seriam destinados a apoiar a detenção e deportação de imigrantes ilegais.
O Orçamento total de Trump é 1,2% inferior à última proposta de Barack Obama, mesmo com o país crescendo fortemente. Esta redução também abriria espaço para o prometido corte de impostos de Trump, mas de que pouco se sabe até agora.
— A proposta orçamentária é neutra, ou seja, não piora no curto prazo a situação fiscal. Mas há o aumento desnecessário de 10% dos gastos com Defesa, um setor onde já há muito desperdício — explicou ao GLOBO Juan Carlos Hidalgo, analista de políticas pública do Centro para a Liberdade e Prosperidade Global do Cato Institute.
O Orçamento corta projetos considerados essenciais, como limpeza de rios e redução da poluição, e destina algumas despesas aos governos locais, o que tende a ampliar a resistência a ele — os republicanos administram 31 dos 50 estados do país. Pelo Twitter, o presidente americano comemorou sua proposta e não deu respostas às críticas:
“Um Orçamento que coloca #OsEUAemprimeirolugar (nome que deu à sua proposta) deve fazer a sua segurança como prioridade número um. Sem segurança não pode haver prosperidade”, escreveu Trump na rede social.

