WASHINGTON - Passada a marca dos cem dias de governo no sábado, o presidente Donald Trump voltou à carga e começou a semana envolvido em praticamente todas as polêmicas que marcaram sua chegada à Casa Branca. A lista incluiu os já tradicionais embates com a imprensa, afagos a líderes autoritários de outros países, declarações sem precisão factual e uma nova baixa em sua equipe de governo — e sob a pressão de manifestações em todo o país.
O tom colérico do presidente voltou à tona quando ele foi pressionado numa entrevista ao repórter John Dickerson, da CBS, no Salão Oval da Casa Branca exibida na segunda-feira. Após ser questionado sobre sua relação com o ex-presidente Barack Obama, afirmou que nem tudo foram momentos bons. Isto o fez voltar às alegações que fizera contra Obama, a quem acusara de grampear suas comunicações na campanha à Casa Branca e chegou a chamar de “mau e doente”.
— Você viu o que aconteceu com a vigilância — afirmou Trump a Dickerson, voltando às acusações que foram desmentidas por FBI e Congresso.
— O que o senhor quer dizer? — rebateu Dickerson.
— Descubra por conta própria — respondeu Trump, que ficou irritado com a insistência do repórter e decretou o fim da entrevista, afastando-se. — OK, já acabou.
O corte abrupto veio um dia após Trump faltar ao tradicional jantar dos correspondentes da Casa Branca, chamando o evento de “chato”, e a mídia, de “falsa” e “incompetente”.
O lado imprevisível de Trump voltou ainda à tona quando ele afirmou à agência Bloomberg que “ficaria honrado” de se encontrar com o líder norte-coreano, Kim Jong-un. Ao tentar amenizar tensões com Pyongyang após ameaças de um confronto militar, Trump surpreendeu:
— Se fosse apropriado que eu o encontrasse, claramente o faria. Ficaria honrado em fazê-lo — revelou o presidente. — Repito, se as circunstâncias forem adequadas. Mas o faria.
Foi a mais nova sinalização de Trump a um líder acusado de violar direitos humanos. Dois dias antes, convidara à Casa Branca o presidente filipino, Rodrigo Duterte, que lidera uma campanha antidrogas que levou à morte extrajudicial de milhares de pessoas em meses, e que admite abertamente ter matado traficantes.
A ONU e entidades de direitos humanos pediram a Trump que seja firme com o colega filipino. “Os EUA têm a obrigação de pedir justiça pelas vítimas da guerra antidrogas de Duterte, em vez de convidar seu responsável”, criticou em nota Phelim Kine, subdiretor da Human Rights Watch.
— O presidente Trump deve abordar com o presidente Duterte o profundo alarme com a aparente esquiva de agir contra violações dos direitos humanos — reiterou a repórteres o alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Zeid Ra’ad al-Hussein.
Ainda assim, a Casa Branca não se abalou: justificou o convite como reforço ao combate à ameaça norte-coreana, destacando que Trump também convidou outros líderes do Sudeste Asiático.
— Não significa que os direitos humanos não importem, mas os assuntos que nos desafiam sobre a Coreia do Norte são muito sérios agora — alegou o chefe de Gabinete, Reince Priebus.
Neste Dia do Trabalho, sindicatos e associações civis fizeram protestos pelo país, juntando milhares de pessoas em cidades como Los Angeles, Washington, Chicago e dezenas de outras para condenar as políticas migratórias do presidente e sua defesa de deportações de ilegais nos EUA. Em Nova York, 12 foram presos ao protestar contra gigantes financeiros.
— A mensagem foi para que os bancos parem com o financiamento de centros de detenção de imigrantes — disse José López, diretor da ONG Make the Road.
Por sua vez, Trump ainda teve a baixa de mais um alto funcionário: membro do Conselho de Segurança Nacional, o assessor Sebastian Gorka se demitiu. Segundo fontes, ele vinha provocando controvérsia interna por causa de suas posições a favor do veto à entrada de muçulmanos e críticas à aproximação diplomática com a Rússia e a China.

