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Trump, salvador de Gotham City

BIRMINGHAM — É difícil refutar a impressão de que a democracia americana seja contraditória e mesmo hipócrita, desenhada como um sistema indireto por proprietários de terras e de escravos, para abafar o que seja vontade indesejada dos eleitores. Historicamente, as elites partidárias seguraram as rédeas do processo politico americano até a eleição de Donald Trump.

Trump é um narcisista inseguro que se acredita sempre ameaçado pela diminuição e desconsideração. Partilha da mesma sensação de sua base eleitoral. Os eleitores mais fervorosos de Trump ressentem-se do que percebem ser desprezo constante das elites políticas aos problemas que os afligem: desemprego, somado a uma epidemia de overdoses por opiáceos entre os trabalhadores. Os eleitores de Trump também padecem de uma xenofobia rábida contra imigrantes que se valem da fraqueza elitista de Washington.

Muitos esperavam de Trump um discurso de posse que deixasse para trás os rancores da campanha, que conclamasse os americanos para a melhoria do futuro do país. Mas, o que se ouviu descrevia um Estados Unidos devastado por problemas criados pelo establishment que tem prosperado “às custas de vocês, o povo”, condenado a viver numa nação encurralada pela ociosidade e pelo crime.

A solução que elegeu Trump propunha o retorno a um paraíso perdido. Com a vida presente péssima, o futuro da nação dependeria da busca nostálgica de um passado a rigor inexistente.

Porém, durante o governo Obama, as taxas de desemprego e de criminalidade reduziram-se; setores da economia amealharam ganhos salariais; o país mudou de uma economia de manufaturas para um economia tecnologicamente avançada, obviamente causando transtornos sociais, mas não a completa decadência do país.

Milhões de americanos puderam, pela primeira vez, usufruir de planos e tratamentos de saúde, que, com Trump, estão ameaçados de perder.

Problemas cada vez mais graves acumulam-se no gramado da Casa Branca. Exageros, distorções e afirmações bombásticas ou falsas vieram à tona e o presidente arca com a pecha de mentiroso.

Os índices de aprovação de Trump despencam, mas não na proporção direta de suas trapalhadas. Más notícias, quase que diárias, não balançam a convicção firme da base eleitoral do presidente. Por que isso acontece?

Os eleitores de Trump parecem imunes às críticas incessantes da grande imprensa, que, a rigor não leem, pois ainda mantém, como referência fundamental, um emaranhado de crenças que os levaram ao voto.

Votar é prioritariamente um ato, e nem sempre uma avaliação racional de alternativas. Eleitores e políticos podem passar ao largo da verdade; apenas avaliam ou veiculam promessas verossímeis.

Os eleitores agarram-se a crenças, sempre rejeitando dúvidas, pois, do ponto de vista da ação, as crenças se opõem às dúvidas. A dúvida não passa de um estágio a ser superado, uma irritação que se deve eliminar. Dúvidas inibem nossos atos: por que haveria de tomar um ônibus se duvido que tenho o dinheiro para a passagem?

Se vier, o desencanto virá em gotas. Haverá apoio ao presidente enquanto sua base resistir a dúvidas e acreditar que os Estados Unidos sejam um amontoado de fábricas enferrujadas. Trump posa de Bruce Wayne, mas o país não é, na verdade, uma vasta Gotham City.

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