WASHINGTON - Pesquisador do Centro Dinu Patriciu Eurasia do Atlantic Council e vice-presidente da Beacon Global Strategies, Mark Simakovsky afirma que as divisões internas do governo americano podem ser exploradas pela Rússia. O especialista, que atuou como chefe de gabinete da Europa e da Otan do secretário de Defesa, afirma que os EUA precisam pensar a longo prazo e tentar deter a expansão russa na Europa.
A relação entre EUA e Rússia se mantém muito tensa, no pior momento dos últimos anos, e as expectativas de que o ataque americano na Síria poderia mudar um pouco o posicionamento da Rússia sobre a Síria mostraram-se falsas. As reuniões de (Rex) Tillerson (secretário de Estado) em Moscou tinham o claro objetivo de uma viagem conciliatória. Ele fez um discurso hábil, no qual mostrou flexibilidade para continuar a cooperação com a Rússia no que for possível. O ataque americano tensionou a relação, mas os dois lados ao menos demonstraram que querem uma relação estratégica mais positiva.
O governo acredita que terá a capacidade de pressioná-lo, com um maior envolvimento militar diretamente contra o governo sírio. Até agora o ataque foi algo isolado, mas acredito que o governo vá buscar envolver-se mais na região, e espera, com isso, conseguir algumas concessões russas, ou ao menos que Moscou seja um pouco mais flexível. Mas não acredito que os EUA terão como fazer os russos mudarem, no curto prazo, a estratégia sobre o governo sírio, em especial em relação a Bashar al-Assad.
Sim, olhando isoladamente o caso da Síria, o futuro de Assad separa os dois países, mas acredito que há outros pontos mais importantes para a Rússia em seu relacionamento com Trump. O governo americano vê uma chance real da retirada de Assad do poder e de um debate mais amplo sobre a situação síria e, com isso, espera forçar a Rússia a priorizar seus ataques na região contra o Estado Islâmico.
Não acredito que o governo tenha uma estratégia nem para a Síria nem para a Rússia. Ele usou uma oportunidade que surgiu com os ataques na Síria, e que ampliou a influência americana, mas não acredito que o governo tem desenvolvido uma abordagem para tratar com a Rússia, e isso é um problema. Você precisa disso para ter uma visão a longo prazo, uma abordagem estratégica. Vemos que Trump tem diferentes pontos de vista, como as diferenças no tom da embaixadora Nikki Haley na ONU, mais belicoso, enquanto o secretário Tillerson adota um tom mais moderado, mais negociador.
Trump precisa ter uma posição mais forte, não pode apenas pensar em um potencial diálogo com a Rússia. Precisa pensar em deter o progresso da Rússia na Europa, e isso passa por um forte apoio americano para conter uma eventual atitude agressiva. E acredito que toda a negociação americana com a Rússia tem que passar pela situação da Ucrânia e tentar o retorno da cooperação da Rússia no caso da Síria.

