WASHINGTON E MOSCOU - Após a escalada de críticas entre Moscou e Washington desde o ataque americano a uma base militar síria, na semana passada, os dois países reconheceram o problema e afirmaram, em reunião de chanceleres desta quarta-feira, na Rússia, que a relação entre as nações vive um momento de falta de confiança. Ambos prometeram melhoras. Mas as palavras não surtiram efeito em Nova York, onde, mais uma vez, o governo de Vladimir Putin vetou a resolução que exigia a cooperação do governo sírio para a investigação sobre o ataque químico contra uma cidade rebelde. Diante do impasse, Donald Trump afirmou que a relação entre as duas nações pode estar em seu pior momento e reforçou as críticas ao Kremlin.
— Não estamos chegando a nenhum avanço com a Rússia, e nossas relações estão em seu ponto mais baixo — afirmou Trump, que se reuniu com o secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), Jens Stoltenberg, e levantou a possibilidade de que os russos possam ter tido ciência do ataque químico que deixou 86 mortos na província de Idlib. — Eu gostaria de pensar que eles não sabiam, mas certamente eles poderiam. Eles estavam lá.
Em entrevista à imprensa russa, Putin também fez críticas e disse que a relação entre os países havia se deteriorado desde a chegada de Trump à Casa Branca.
— Pode-se dizer que o grau de confiança em nossas relações, especialmente na área militar, não melhorou. Pelo contrário, deteriorou-se.
Um dia antes, Putin já havia acusado os EUA de planejar fabricar ataques químicos para envolver o regime de Bashar al-Assad, aliado da Rússia. Mas após dias de suspense, recebeu, por duas horas, o secretário de Estado americano, Rex Tillerson, que foi a Moscou para tentar restabelecer o diálogo. A primeira medida foi o anúncio da retomada do canal de comunicação entre as potências para evitar que se ataquem mutuamente na Síria.
Em Nova York, a Rússia vetou, pela oitava vez, uma proposta de resolução sobre o governo de Assad, que permitiria uma investigação sobre o ataque químico. A Rússia usou seu poder de veto contra o projeto enquanto membro permanente do Conselho. A Bolívia, que não tem poder de veto, também votou contra a resolução, e três países se abstiveram (China, Etiópia e Cazaquistão). Em Washington, Trump deu a entender que negociou a abstenção chinesa — outro membro permanente do Conselho — o que deixou a responsabilidade do veto com os russos.
— A Rússia novamente escolheu ficar ao lado de Assad, mesmo com o mundo árabe se afastando do regime — atacou a embaixadora americana na ONU, Nikki Haley.
O texto revisado incorporou sugestões da própria Rússia, da China e de outros dez membros do Conselho, mas manteve as demandas específicas para que a Síria entregasse informações sobre suas operações militares de 4 de abril, indicaram diplomatas. O chanceler russo, Sergei Lavrov, chegou a defender, em Moscou, uma “investigação honesta” sobre o episódio. No encontro, Lavrov e o secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, tentaram adotar um tom otimista, mas poucos avanços ocorreram.
— O presidente Putin confirmou estar disposto a restabelecer (o acordo), sob a condição de que nosso objetivo comum seja a luta contra o terrorismo — declarou o chanceler. — Apesar da quantidade de problemas existentes, há perspectivas consideráveis de trabalharmos juntos.
O americano, por sua vez, reforçou a posição de seu país, que mudou radicalmente depois do ataque químico, quando os EUA passaram a exigir abertamente a queda do ditador sírio para a retomada da paz na região:
— Há um baixo nível de confiança entre nossos dois países. As duas maiores potências nucleares não podem ter este tipo de relação — afirmou Tillerson durante entrevista com Lavrov.
Lavrov, no entanto, mostrou-se irredutível na posição de manter Assad à frente do governo sírio, mesmo após Tillerson afirmar que o regime estava se “aproximando do fim”. Na entrevista, o russo reiterou a posição de Putin e lembrou de exemplos ruins da queda de ditadores recentemente, que ampliaram a instabilidade e geraram espaço para o crescimento do terrorismo, como os casos de Slobodan Milosevic na Iugoslávia, Saddam Hussein, no Iraque, e Muamar Kadafi, na Líbia.
Ainda não se sabe quais serão os próximos passos, mas Trump afirmou que a Otan — que ele tanto criticara nas eleições — continua importante, apesar de pedir que os países europeus paguem mais pela aliança militar. Pode ser o sinal de que utilizará o grupo como forma de pressionar Moscou e ameaçar Assad, chamado por ele de “açougueiro”e “animal”.

