WASHINGTON - O anúncio da saída dos Estados Unidos do acordo do clima de Paris pareceu uma declaração de guerra: criou discórdia no país e reprovação imediata em grande parte do planeta. Com o ato, controverso na Casa Branca e entre os republicanos, Donald Trump joga os EUA em uma situação desconhecida, isola mais ainda a nação e amplia a tensão política. De quebra, desacredita o pacto que tenta evitar uma catástrofe ambiental — um risco real, segundo os cientistas.
— Fui eleito para representar os eleitores de Pittsburgh (cidade da Pensilvânia), não de Paris — disse Trump durante o anúncio nos jardins da Casa Branca, em evento com ares de relançamento de governo. — Vamos começar negociações para reentrar no Acordo de Paris ou numa nova transação que seja mais justa. A partir de hoje, os Estados Unidos cessarão toda a implementação do Acordo de Paris e os encargos financeiros e econômicos draconianos que o acordo impõe ao nosso país.
Trump argumentou toda a sua decisão em questões econômicas. Afirmou que os avanços de energia limpa poderiam suprir os EUA se o país crescesse modestamente, na casa do 1% ao ano, mas como quer avançar em ritmo de 3%, 4%, precisará “de toda a fonte de energia possível”, disse, afirmando que isso devolverá a competitividade para o país, gerando riqueza e “milhares de empregos”. Dessa forma, Trump disse estar cumprindo uma promessa de campanha e que deu um passo no sentido de seguir seu slogan eleitoral: “Fazer os EUA grandes novamente”.
As reações foram imediatas e contundentes contra Trump. Até a decisão de quinta-feira, líderes globais praticamente imploraram a Trump para manter o país no acordo global, como ocorreu no fim de semana no G7, reunião das sete nações mais desenvolvidas do planeta, na Itália. A Alemanha — cuja premier, Angela Merkel, disse no fim de semana que os europeus não poderiam mais confiar nos americanos —, a França e a Itália agiram rápido e, em um comunicado, informaram que não vão aceitar nenhuma renegociação do Acordo de Paris:
— Eu digo a vocês firmemente esta noite: não iremos renegociar um acordo menos ambicioso. Não há saída — pontuou Emmanuel Macron, o presidente francês, que assumiu o cargo há menos de um mês. — Não se confundam em relação ao clima. Não há um plano B porque não há um planeta B.
Apenas duas nações, até agora, não faziam parte do acordo: a combalida Síria, que vive uma guerra há cinco anos, e a Nicarágua. Na quinta-feira, até a China, país que é o maior poluidor do mundo, à frente dos EUA, já indicou que continuará com seus projetos de redução de emissões. No Brasil, uma nota conjunta dos ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores informa: “Preocupa-nos o impacto negativo de tal decisão no diálogo e cooperação multilaterais para o enfrentamento de desafios globais”.
A meta dos EUA no Acordo de Paris era cortar de 26% a 28% as emissões de gases de efeito estufa até 2025, tendo como base o volume de emissões de 2005. Isto para tentar evitar que a temperatura global suba mais de 2 graus Celsius até 2100, o que geraria um degelo ainda maior das calotas polares e aumento do nível dos oceanos, entre outras consequências.
Internamente, empresários e políticos rebatem os argumentos econômicos de Trump, afirmando que fora do acordo o país ficará isolado, poderá perder a relevância em tecnologia de ponta e ver o fechamento de milhares de “empregos verdes”. O empresário Elon Musk, com participação em empresas como PayPal, SpaceX e Tesla Motors, anunciou que sairá do conselho da Casa Branca. Empresas como Apple, Google, Microsoft, Monsanto e Coca-Cola anunciaram ao longo do dia que manteriam seus pactos climáticos. E Mark Zuckerberg, fundador do Facebook, publicou uma dura nota: “Retirar-se do acordo climático de Paris é ruim para o meio ambiente, ruim para a economia, e coloca o futuro de nossas crianças em risco”, escreveu.
Logo após o anúncio, milhares de americanos protestaram em grandes cidades do país contra a decisão de Trump. Em Washington, a concentração foi diante da Casa Branca. O ex-presidente Barack Obama publicou um comunicado no qual disse que, há um ano e meio, quando o acordo foi firmado, os EUA exerceram sua liderança e influenciaram dezenas de outros países a aderirem ao acordo: “O setor privado já escolheu que o futuro será de economia de baixo carbono”, escreveu Obama, incentivando as empresas a continuarem neste caminho.
Até a Organização das Nações Unidas (ONU) foi firme. O secretário-geral da entidade, António Gutérres, disse em nota que “continua confiante de que cidades, estados e empresas nos Estados Unidos — juntamente com outros países — continuarão a demonstrar visão e liderança, trabalhando para o crescimento econômico resiliente e de baixo carbono que criará empregos de qualidade e mercados para a prosperidade do século XXI”.
Ao menos quatro estados — Califórnia, Nova York, Oregon e Washington — e cerca de 70 grandes cidades anunciaram que vão ficar fiéis à proposta do acordo climático de Paris. O governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, também criticou a decisão e disse que seu estado está comprometido em seguir as metas do Acordo de Paris “independentemente das ações irresponsáveis de Washington”.
Pelo Twitter, o democrata Bill Peduto, prefeito de Pittsburgh, destacou que não se afastará do que ficou determinado no Acordo de Paris: “Como prefeito de Pittsburgh, posso garantir a vocês que seguiremos as diretrizes do Acordo de Paris para nosso povo, nossa economia e futuro”.
Fontes indicam que a divisão sobre sair ou não do acordo estava dentro do governo: enquanto a filha do presidente, Ivanka Trump, e seu marido e assessor do sogro, Jared Kushner, defendiam a manutenção dos EUA no tratado, os assessor Steve Bannon e o diretor da Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês), Scott Pruitt, defendiam o abandono. Se por um lado republicanos aplaudiram Trump, moderados estavam assustados, principalmente os que vivem em estados mais divididos e que dependem das eleições do ano que vem — pesquisas indicam que a maior parte dos americanos é favorável ao Acordo de Paris.
Trump não deu pistas de como sairá do acordo. Pelas regras, os EUA teriam que ficar ao menos três anos associados ao tratado, embora possam simplesmente não cumpri-lo, sem sofrer sanções. As bases da renegociação proposta por Trump também não estão claras, mas, na prática, ele já havia desfeito uma série de normas ambientais da gestão Obama, permitindo a volta da exploração do carvão e novos projetos de petróleo em áreas de proteção ambiental, por exemplo, além de inviabilizar o funcionamento da EPA com cortes orçamentários.

