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Trump busca posição mais firme antes de encontro com Putin

VARSÓVIA, WASHINGTON E MOSCOU — O presidente americano, Donald Trump, chega hoje a seu encontro internacional mais aguardado desde que assumiu a Casa Branca, em janeiro, tentando demonstrar uma posição mais firme no cenário mundial frente à Rússia de Vladimir Putin. A reunião, a primeira entre os dois chefes de Estado, será às margens da cúpula do G20, e ambos deverão aproveitar a ocasião para se avaliar mutuamente e tentar estabelecer algum tipo de relação. Em Varsóvia, onde discursou ontem, Trump reforçou o compromisso dos EUA com a Otan, criticou o “comportamento desestabilizador” dos russos e buscou promover-se como o defensor da civilização ocidental. Mas, ao mesmo tempo, admitiu finalmente que o Kremlin pode ter influenciado a eleição de 2016 nos EUA, vencida por ele. Moscou, por sua vez, limitou-se a rebater as acusações de ser um agente desestabilizador.

Um dia antes de sua participação na reunião do G20 em Hamburgo, na Alemanha, Trump destacou o que viu como semelhanças entre EUA e Polônia — linha de frente da Otan no Leste Europeu — na luta pela “defesa da civilização”.

— Exortamos a Rússia a pôr fim a suas atividades desestabilizadoras na Ucrânia e em outros lugares, e a cessar seu apoio a regime hostis, como os de Síria e Irã, e pedimos que se una à comunidade de nações responsáveis na luta contra nossos inimigos comuns e em defesa de nossa civilização — disse, num discurso duro contra o terrorismo, a burocracia e “a erosão das tradições”.

E continuou, num tom que buscou reforçar suas credenciais de líder do Ocidente — posto que, devido a seu comportamento polêmico, muitos têm atribuído à chanceler alemã, Angela Merkel.

— A questão fundamental do nosso tempo é saber se o Ocidente tem vontade de sobreviver. O povo polonês, o povo americano e os povos da Europa ainda gritam “queremos Deus”. Nossos cidadãos não conquistaram a liberdade juntos, sobreviveram juntos aos horrores e enfrentaram o mal juntos apenas para perdermos nossa liberdade para uma perda do orgulho e da confiança em nossos valores.

Trump ainda pediu à comunidade internacional que demonstre à Coreia do Norte as consequências por seu comportamento “muito, muito ruim”.

— Estamos estudando tomar medidas bastante severas — afirmou Trump, que viu anteontem uma proposta de endurecimento de sanções na ONU fracassar em obter apoio russo.

O presidente americano voltou a cobrar dos aliados o aumento de participação no orçamento da Otan, mas aproveitou para defender o chamado Artigo 5 da aliança, que ressalta apoio mútuo e irrestrito dos países-membros frente a agressões externas — um dispositivo criado com vistas a uma possível agressão soviética na Guerra Fria. A referência fora deixada de lado numa anterior visita à sede da Otan em Bruxelas, o que levou a críticas dos aliados.

Mas se por um lado Trump buscou reforçar suas credenciais internacionais falando duro com Moscou, numa coletiva ao lado do presidente polonês, Andrzej Duda, foi mais evasivo ao reconhecer a interferência do governo russo na eleição de 2016.

— Penso que poderia muito bem ter sido a Rússia. Acho que poderiam ter sido outros países. Não serei específico. Mas eu acho que muitas pessoas interferiram. Tem acontecido há muito tempo, por muitos e muitos anos — desconversou Trump, que acusou seu antecessor. — O que preciso mencionar é que Barack Obama, quando presidente, descobriu isso. A eleição foi em novembro. Houve muito tempo, e ele não fez nada. Por que ele não fez nada? Foi avisado pela CIA de que era a Rússia, até onde entendo, e não fez nada. Foi porque pensava que Hillary (Clinton, candidata democrata) ganharia.

A Casa Branca não adiantou a agenda da conversa bilateral, na qual se espera a abordagem da tensão nuclear com a Coreia do Norte e as crises ucraniana e síria. O secretário de Estado dos EUA, Rex Tillerson, limitou-se a defender cooperação para desmilitarizar o conflito na Síria e para acabar com o Estado Islâmico. A Rússia também não quis adiantar detalhes do encontro.

— Será uma oportunidade de finalmente entender a verdadeira abordagem de cada um em relações bilaterais — limitou-se a avaliar o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, em coletiva de imprensa.

Para analistas, surge um cenário de jogo de xadrez. Investigado por possível obstrução de Justiça como parte de inquéritos sobre as ações russas em 2016, Trump pode atrair ira interna nos EUA se fizer movimentos fortes de aproximação de Moscou. Por outro lado, indispor-se com Putin pode significar novas tensões em áreas de atrito. Mas o desafio mais difícil pode ser domar o próprio Trump.

— Há um grande perigo que Trump revele coisas que não deveria, ou que acerte coisas que não foram examinadas cuidadosamente por militares, diplomatas ou serviços de Inteligência — disse à BBC o professor de Segurança Nacional Howard Stoffer, ex-diplomata do Conselho de Segurança da ONU.

Sem perspectiva de acordos amplos

Já Putin estaria sondando o que conseguiria extrair de Trump. Conhecido pelo jeito desafiador, o russo pode usar sua habilidade para conferir se toma o rumo da conciliação ou do endurecimento.

— Se Putin concluir que mesmo com um acordo entre EUA e Rússia, Trump não será capaz de implementá-lo, perderia interesse em buscar um pacto — avaliou Dmitri Trenin, diretor em Moscou do instituto de ciência política Carnegie ao “New York Times”. — Se nenhum acordo for alcançado, a Rússia tomaria medidas retaliatórias, o que poderia dar margem a novas ações dos EUA.

Neste contexto, qualquer debate sobre alívio a sanções econômicas aos russos parece distante.

— Dada a situação atual dos países, não haverá acordos amplos — avaliou Stoffer.

Ainda assim, o apelo pelo diálogo predominou:

— Mesmo em todas as crises da Guerra Fria, nunca interrompemos o diálogo sobre questões de segurança, pelo perigo que isso traria — disse ao site “Politico” Igor Ivanov, ex-chanceler de Putin.

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