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‘Tortura política do Estado e de Maduro é realidade’, diz deputado ex-preso político

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RIO E CARACAS - O jovem deputado Rosmit Mantilla passou dois anos e meio dos seus 32 de vida na prisão — sem julgamento. Acusado de ser um dos organizadores dos protestos violentos de 2014, só conseguiu deixar a cela na semana passada, por causa de uma crise na vesícula. Cumprindo pena cautelar, voltou à Assembleia Nacional, onde pretende lutar, mais do que nunca, pelos direitos humanos. Em entrevista ao GLOBO, relata seu pesadelo no Serviço Bolivariano de Inteligência Nacional (Sebin) e denuncia o governo de Nicolás Maduro: “Ele usa o Poder Judiciário para controlar os venezuelanos”.

Fui sequestrado na casa dos meus pais, em um dia comum. Assim como muitos do partido Vontade Popular presos naquela época, fui acusado por delitos por causa dos protestos de 2014 e permaneci preso por dois anos e meio sem qualquer julgamento. Não houve sequer abertura de um processo. Minha família e meus amigos mais próximos eram perseguidos, alguns, sequestrados por algumas horas e interrogados. Eles queriam saber quem eu era. Apareciam na porta da minha casa, tiravam fotos. Houve muita pressão psicológica. Foi muito duro imaginar que minha família corria perigo.

Nunca puderam provar nada. Eu tinha um papel ativo nas redes sociais, convocando as pessoas a irem às ruas. Estive pessoalmente em poucas manifestações.

Ficava a maior parte do tempo numa cela de dois metros por três, com um par de livros, sem mais nada. Não havia janela, não respirava ar puro. Algumas vezes dividia o espaço com alguém, mas quando queriam recrudescer os castigos contra mim, me deixavam sozinho. Havia muito assédio político, principalmente com insultos.

Não. Fui um dos poucos presos que não foram torturados no Sebin. Os outros me contaram relatos terríveis... que eram golpeados, alguns com correntes, em outros jogavam excrementos. Foi uma experiência muito dura, mas também enriquecedora. Pude entender como a tortura política do Estado e de Maduro é uma realidade. Vi na carne que não há democracia na Venezuela, que não se respeitam os direitos humanos.

Sofria com dores fortes na vesícula há um ano. Era uma dor insuportável, mas embora reclamasse, eles não faziam caso. Até que precisei operar às pressas. Com a vesícula destruída, há cerca de 20 dias me enviaram para uma clínica privada, de confiança. Tive que pressionar até para isso. Fui castigado por dizer ao mundo que estava doente.

Sim. Toda quarta-feira recebia visitas da minha família. Mas foi duro sair e ver como está o país hoje. Vejo nas ruas venezuelanos buscarem comida no lixo, pessoas deprimidas, com fome, perdendo peso abruptamente. É muito cruel. A situação piorou muito durante este tempo, principalmente no que diz respeito à insegurança. Vivemos a maior crise política e econômica da Venezuela contemporânea.

Nunca esperei por isso. Hoje, cem presos políticos ainda estão detidos, além de três mil processados que cumprem medidas cautelares. Agora, espero recuperar minha vida normal. Ontem (quarta-feira), minha medida cautelar foi assinada, e agora tenho que me apresentar a cada 15 dias. Mas esse tempo na prisão só fez com que eu assumisse mais compromissos. O mais importante deles é conseguir libertar todos os presos políticos, como Leopoldo López, Daniel Ceballos, José Vicente García... É preciso denunciar o que se passa em meu país. Na Venezuela não há mais separação de poderes. Maduro usa o Poder Judiciário para controlar os venezuelanos. Não sei se um dia serei julgado, mas estou preparado para dar a cara a tapa pelo meu país.

Hoje, é o único partido que tem força política. Por isso estão perseguindo nossa voz. É preciso continuar pressionando, e a rua é fundamental para isso. Temos a saída eleitoral, mas precisamos mais do que nunca da pressão popular.

Tenho incertezas, claro, mas meu compromisso com os venezuelanos é mais importante do que isso. Fui eleito para defender, legislar e denunciar. Pessoalmente, após esses anos na prisão, vejo a vida com mais calma. Só aumentou meu compromisso com meu país, que hoje é profundamente maior. Nunca deixaria a Venezuela.

Era ativista e militante do Vontade Popular, dentro e fora do país. E uma das bandeiras do partido é a inclusão. O Vontade Popular foi o primeiro a a debater a questão do casamento gay, e me propus a abrir essa frente, assumindo essa bandeira. Fui também o primeiro a tocar no tema na Assembleia Nacional. Vejo que estamos avançando em matéria dos direitos da comunidade LGBT, e nos próximos meses vou trabalhar para buscar a reforma do Código Civil a fim de que se permita a união entre pessoas do mesmo sexo. Os temas dos direitos da comunidade LGBT e da libertação dos presos políticos serão os mais importantes no meu mandato.

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