RIO — Bruno Rizzi Razente procurava “um pouquinho de emoção” quando se candidatou para um posto na Embaixada do Brasil na Síria. Em 2014, partiu ao Oriente Médio e assumiu a responsabilidade de liderar a triagem de sírios que buscam o refúgio no Brasil. No posto de terceiro-secretário, cabe a ele abrir as primeiras portas do solo brasileiro aos “afetados pela guerra”. O paranaense de Londrina, de 31 anos, acaba responsável pelo julgamento preliminar do abrigo — uma espécie de porteiro do país — ao analisar o pedido de visto a estrangeiros que então seguem ao território brasileiro para continuar o processo depois da checagem de segurança.
Lotado no Líbano, onde os três diplomatas brasileiros na vizinha em guerra se alojaram a partir de 2012, o diplomata viaja duas vezes por mês ao consulado de Damasco, cujo setor consular reabriu em julho para a emissão de vistos, passaportes e certidões.
‘JEITINHO’ SÍRIO NAS ENTREVISTAS
É em Beirute que ele encabeça a entrevista de famílias sírias num dos postos autorizados pela resolução do Comitê Nacional para Refugiados (Conare) — que desde 2013 facilita o carimbo para quem quer fugir da guerra civil — e tem o contato direto com os efeitos do conflito que se arrasta há cinco anos.
— Um homem me contou que havia fugido do Estado Islâmico em bombardeio, andado pelo deserto e pagado um intermediador na fronteira para vir à entrevista. Atendi famílias cristãs que queriam deixar o país e jovens que fugiam do Exército. Recebi também uma menina que queria ajuda para escapar de um casamento arranjado. Era roqueira, gostava de Iron Maiden, não queria usar véu. São histórias que guardo. É uma grande satisfação. Mas, no começo, foi uma carga adicional de trabalho com que a equipe aprendeu a lidar enquanto fazia — recorda.
O diplomata organizou o atendimento dos interessados a, no máximo, 30 famílias por semana. O trabalho à frente da triagem o fez ser reconhecido nas ruas de Damasco mais de uma vez. Um ano depois da entrevista, de volta à Síria por não se adaptar no Brasil, um taxista lembrou de Razente — que foi abordado também, desta vez em tom não tão amistoso, por um sírio a quem havia negado a permissão de viagem. O peso da decisão do agente consular diminuiu em 2015, quando a resolução foi renovada. Brasília e a Polícia Federal passariam a referendar as emissões de visto dos postos.
— O pico foi em 2014. A gente desenvolveu o critério à medida que implementava o programa. As instruções eram muito amplas. Podiam ganhar o visto “pessoas afetadas pelo conflito”. Era algo novo, não sabíamos como fazer. Fiquei mal, me achei uma pessoa terrível no primeiro visto que neguei. Poderia ter mudado a vida daquele sírio. Mas depois fiquei mais durão — conta.
Com a ajuda de uma tradutora de árabe, o diplomata levanta a história do solicitante em entrevistas. A maioria quer seguir para São Paulo. É no boca a boca, ele explica, que os sírios trocam dicas sobre o programa do Brasil e sobre o que dizer na entrevista. Uns falam dos elos que têm no país, outros recorrem aos famosos “praia, samba e futebol” de uma terra “alegre e receptiva”. Vários pensam que há preferência por cristãos e aparecem com grandes cruzes no pescoço.
— É difícil negar o refúgio a um sírio na lei brasileira. Se ele quer fugir da situação econômica do país, também é um “afetado pela guerra” — explica.
De acordo com o Conare, até abril, o Brasil concedera abrigo a mais de 2,2 mil sírios, que já formam a maior comunidade refugiada do país. Mas os vistos emitidos, segundo o diplomata, chegam ao triplo deste número: alguns aguardam a decisão final brasileira, outros voltam à Síria durante o processo, uns nem partem de lá. Quer venham ou não ao país, o visto é a garantia da chance de uma nova vida.

