Início Mundo ‘Sou da geração que perdeu todas as ilusões’, diz escritor cubano
Mundo

‘Sou da geração que perdeu todas as ilusões’, diz escritor cubano

Envie
Envie

RIO - Ronaldo Menéndez vive no exterior há 20 anos. Radicado em Madri, o escritor cubano ainda visita o país natal com frequência. Sem esperar grandes mudanças da ilha após a morte do ex-líder Fidel Castro, ele diz, no entanto, ter sentido um alívio simbólico.

Minha decisão tem a ver com a obsessão que muitos cubanos têm em determinado momento da juventude. Foi quando comecei a buscar possibilidades e consegui um trabalho como professor em Lima, no Peru, onde fiquei por seis anos. Depois fui para Madri, onde estou há 12, por causa da minha profissão. Foi uma decisão pessoal, mas também empurrada pelas condições de Cuba, pela falta de oportunidade naquele momento. Foi um exílio sem ruptura radical, sempre com a possibilidade de regressar. Nunca tive uma relação hostil com o governo, pelo contrário. O governo me ajudou na saída e tem me ajudado em todas as vezes que estive em Cuba.

Estava em Madri e minha primeira sensação foi de perplexidade. Fidel foi morto tantas vezes, foram tantos rumores, que estava incrédulo. Depois tive uma sensação estranha. Não pensei, como tanta gente, que a morte fosse representar algo concreto em termos de mudanças, mas senti uma espécie de alívio simbólico de que a figura do líder da Revolução Cubana já não existisse fisicamente.

É um processo psicológico-social complexo. De algum modo o caudilho, o cacique, também é a tribo. Ele forma parte do imaginário das pessoas. Há muitos cubanos com menos de 50 anos, hoje a imensa maioria da população, que cresceram com a figura de Fidel como um pai, como alguém que determina todas as esferas, que controla, com o poder central e absoluto, sua vida inteira. É possível entender que essas pessoas participem inclusive do luto. Há também a questão cultural de ter uma relação com Fidel absolutamente vital e visceral. Por outro, há a idiossincrasia do cubano de estar em grupo. As pessoas não querem deixar de também pertencer ao grupo que participou do funeral. É o sentimento de fazer parte da nação, e até de certo orgulho: “Já que não temos nada, pelo menos tivemos Fidel.”

Acredito que as mudanças que Raúl fez só seriam feitas por Raúl. Claro que Fidel continuou nos bastidores no poder por mais tempo do que parece. Mas as mudanças foram feitas por Raúl, que estava muito mais ligado à mentalidade chinesa, de uma certa liberalização econômica, mantendo o controle político. Mas são mudanças tão tênues, tão frágeis que não afetam realmente as estruturas econômicas essenciais do socialismo em Cuba e não se revertem no bem-estar da população. Há estímulos a pequenos comerciantes, mas a economia de um país e de todo um povo que passou muitas necessidades não depende de pequenas transformações.

Será a mesma coisa. Cuba precisa de transformações estruturais, mudanças na legislação e na Constituição, para que haja uma transição.

Os direitos humanos são um tema bastante complexo porque Cuba não tem os extremos de miséria de países como o Brasil ou a Bolívia, e isso serve ao governo para defender que há cumprimento dos diretos humanos. Mas, do ponto de vista internacional, definitivamente há problemas. E creio que nada vá mudar essencialmente. Pertenço a uma geração da resignação, que há algum tempo perdeu ilusões sobre possibilidades de mudanças e aceita resignada o que vier.

Siga-nos no

Google News