Repressão bielorrussa separa criança de pais manifestantes Repressão bielorrussa separa criança de pais manifestantes

Repressão bielorrussa separa criança de pais manifestantes

Por Folha de São Paulo / Portal do Holanda

19/09/2020 11h04 — em Mundo

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) - O regime bielorrusso começou a cumprir a ameaça de tirar crianças de pais que se manifestam contra a ditadura. Artiom, filho de seis anos da ativista da Belarus Europeia Elena Lazarchik, foi levado para um orfanato na quinta (17) porque sua mãe não foi buscá-lo na escola.

No horário da saida escolar, ela estava detida sob acusação de participar de ato ilegal. Na Belarus, manifestações precisam ser autorizadas pelo regime.

O pai de Artiom, o também ativista Serguei Matskoit, não foi contatado antes que o menino fosse entregue ao governo e levado, sem ordem judicial.

Depois de liberada da delegacia, Lazarchik não pode resgatar o filho. O governo afirmou que faria antes uma "investigação social" de duas semanas para decidir se ela poderia manter a guarda do menino.

O orfanato também proibiu visitas "para evitar a transmissão do coronavírus", embora o ditador bielorrusso, Aleksander Lukachenko, tenha se notabilizado por minimizar a gravidade da Covid-19 e prescrever sauna e vodca para combatê-la.

Lazarchik conseguiu permissão para retirar o filho do orfanato na tarde deste sábado (19), depois de entregar vários documentos. Desde cedo, centenas de pessoas se concentraram na frente do Centro Social e Pedagógico de Frunzenski, em apoio à família.

Quando a mão e o menino saíram do local, às 13h30 (horário local, 7h30 no Brasil), os manifestantes bateram palmas, gritaram palavras de ordem e cantaram músicas infantis.

"Ele estava sorrindo e parecia bem", descreveu à reportagem por aplicativo uma moradora de Minsk que estava no local.

A ameaça de tirar as crianças de pais que se manifestam contra a ditadura foi feita em um programa na TV pública na segunda (14), pelo chefe do departamento de supervisão para a implementação da legislação sobre menores e jovens do Gabinete do Procurador-Geral da Bielorrússia, Aleksey Podvoisky.

Segundo ele, esses pais violam as leis que regulam os direitos da criança, pois não há garantia de segurança no que o regime chama de "eventos de massa não autorizados".

Podvoisky afirmou que as punições previstas são advertências, multas e o afastamento da criança de sua família, "em alguns casos". Nesta semana, houve pelos menos 60 multas a pais manifestantes, segundo ativistas do país.

A atitude faz parte de uma escalada de repressão para tentar abafar os protestos diários contra Lukachenko, que completam neste sábado 42 dias seguidos.

Desde a eleição presidencial de 9 de agosto, considerada fraudada, a ditadura já prendeu mais de 7.000 pessoas. Ao menos cinco foram mortos durante a repressão e há cerca de 500 casos documentados de tortura.

A situação levou o Conselho dos Direitos Humanos da ONU a convocar uma reunião extraordinária nesta sexta (19), na qual a maioria dos participantes condenou as irregularidades eleitorais e a repressão violenta às manifestações pacíficas.

A OSCE (organização europeia de cooperação e segurança) decidiu enviar uma missão ao país para investigar a situação dos direitos humanos após as eleições presidenciais.

Apesar da repressão, novos protestos estão marcados para este final de semana em várias cidades da Belarus, entre elas a marcha das mulheres, que ocorre todos os sábados e, na semana passada, registrou várias detenções.

As mensagens de convocatória para a marcha deste sábado avisavam que o destaque seria "a quantidade máxima de roupas brilhantes, lantejoulas e não menos transparências brilhantes".

Também sugeriam que as manifestantes partissem de vários pontos da cidade, para dificultar a repressão.

Nos pátios internos das quadras residenciais foram organizadas festas para o Dia da Bandeira, em que o símbolo principal é justamente a bandeira histórica branca e vermelha usada na breve república independente de 1918 e no fim da URSS, até que Lukachenko a abolisse após sua primeira eleição, em 1994.

"Não se esqueça de pendurá-los nas janelas e nas varandas logo de manhã! Esses símbolos agem nos Lukachistas como a luz do sol nos vampiros", afirmava convocatória.

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