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Refugiados e sem família: As crianças da guerra do Sudão do Sul

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NGUENYYIEL, Etiópia — Sozinha e descalça, Nyadet seguiu durante nove dias as pegadas daqueles sul-sudaneses que, como ela, fugiam dos combatentes. Caminhando para o leste, e sobrevivendo graças a desconhecidos que ofereciam alimentos, alcançou um acampamento de refugiados na Etiópia.

Nyadet tem doze anos. Em novembro, quando as ruas de Malakal, sua cidade se transformaram em um campo de batalha, se perdeu de seus pais, sua irmã e seus dois irmãos.

— Tomara que estejam a salvo — espera a menina.

Mais de 3,7 milhões de sul-sudaneses, um terço da população, têm fugido de seus lares por causa da guerra que assola o país desde dezembro de 2013. Em uma das piores crises humanitárias do mundo, a situação de dezenas de milhares de menores separados de suas famílias representa um problema particularmente grave.

— Fogem de situações nas quais suas vidas correm claramente perigo — explica Daniel Bate, da ONG Save The Children, que procura levar as crianças perdidas novamente à suas famílias.

No acampamento de refugiados de Nguenyyiel, região oeste da Etiópia, o menores que conseguiram cruzar a fronteira sozinhos, relatam como sua infância e suas famílias ficaram destruídas.

— Houve uma guerra — explica timidamente Nyakung, de 11 anos

Sua mãe foi queimada viva em uma cabana. Seus três irmãos morreram após serem baleados enquanto tentavam conseguir refúgio em uma base da ONU.

As agências humanitárias buscam reunir as famílias divididas pela guerra, porém, como o conflito segue causando estragos, as possibilidades destas crianças de encontrar seus pais são mínimas.

A guerra no Sudão do Sul, onde as tropas fiéis ao presidente Salva Kiir enfrentam as oposicionistas do antigo vice-presidente Riek Machar, se caracterizam por um grande número de atrocidades étnicas, tais como estupros, assassinatos e torturas, apesar da presença das Forças de Paz da ONU. Por volta de seis milhões de sul-sudaneses sofrem de escassez de alimentos.

Dos 1,8 milhão de habitantes que saíram do país, um milhão são menores, e destes, 75 mil foram separados de seus pais ou de todos seus familiares, de acordo com estimativa da ONU.

Os voluntários de projetos humanitários observam periodicamente como estas crianças atravessam com dificuldade a fronteira, acompanhados por desconhecidos, ou completamente sós.

— Eles parecem exaustos, com roupas usadas e sem ter tomado banho por bastante tempo. Não lhes resta nada — diz Daniel Abate.

Cerca de 2.900 crianças sem famílias vivem em Nguenyyiel e dividem seu tempo entre a escola e a área de lazer protegida do sol por árvores.

Chan, de treze anos, também fugiu de Malakal quando sua casa, uma cabana de palha, pegou fogo no fim de 2016. Caminhou um mês antes de chegar à Etiópia.

— Quando via um lugar seguro, ia nessa direção — explica ele.

Se Nyandet espera encontrar um dia sua família, outros como Chan perderam toda a esperança, cientes de que seus pais morreram.

O acordo de paz concluído há quase dois anos entre o governo e os rebeldes, começou a agonizar quando violentos combates estouraram no país em julho de 2016.

O caos que reina no país, dificulta muito a localização das família e das crianças, caso sejam encontrados vivos, lamenta Hiwotie Simachew, da ONG Plan I internacional. Apesar de alguns parentes permanecerem no pais, outros fugiram provavelmente para Uganda, Quênia, Sudão ou Etiópia, ou até para locais mais distantes.

Plan International e Save The Children conseguiram devolver centenas de crianças a suas famílias. Mas, as cifras representam somente uma fração ínfima das 31.500 crianças perdidas, registradas pelas autoridades etíopes.

Mesmo quando algum parente é encontrado, ocorre deste negar-se a cuidar do menor, afirmou Simachew, dando o exemplo de um sul-sudanês residente na Austrália, que se negou a adotar três de seus sobrinhos.

Em alguns casos são os próprios menores que se negam, temendo voltar ao país de onde fugiram, relata a voluntária.

— Creem que se demonstrarem interesse em voltar para suas famílias, terão de voltar ao Suão do Sul — conta.

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