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Recompensa a malinês mascara dura realidade de imigrantes ilegais

PARIS — O gesto heroico de Mamoudou Gassama — o imigrante do Mali que no sábado resgatou uma criança de 4 anos pendurada na sacada de um apartamento em Paris — lhe garantiu a recompensa com a qual sonha todo imigrante em situação ilegal: na segunda-feira, o presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu-lhe a cidadania. Nesta terça-feira, o malinês de 22 anos recebeu a permissão de residência das mãos do prefeito do departamento de Seine Saint-Denis, na periferia da capital francesa, e assinou um contrato de dez meses com o Corpo de Bombeiros de Paris. Mas o interesse despertado pelo jovem — que ONGs de apoio aos imigrantes denunciaram como “hipocrisia” e “uso político descarado” — mascaram outra realidade: Mamoudou é apenas um dos cerca de 300 mil imigrantes sem documentos no país, que são cada vez mais perseguidos pelo governo de Macron. E chegar até lá não foi nada fácil: a rota de migração pelo Mediterrâneo Central percorrida por ele é a mais mortal do mundo, com mais de dez mil mortes registradas desde 2015.

Ainda que tenha conseguido sobreviver, se a política de imigração de Macron fosse aplicada ao pé da letra, Mamoudou provavelmente seria deportado — ao oferecer a legalização da situação do imigrante, o presidente deixou claro que tratava-se de um “caso excepcional”. Quando visitou Calais, em janeiro deste ano, o chefe de Estado fez uma clara distinção entre migrantes econômicos, caso de Mamoudou, que deveriam ser repelidos, e refugiados que fogem de guerras. Este ano, as deportações aumentaram em 6,5%, segundo o ministro do Interior, Gérard Collomb, que estima que hoje 300 mil imigrantes ilegais vivam no país.

A aventura de Mamoudou começou em 2013, quando ele deixou o Mali, fugindo da pobreza. Seguiu, como muitos conterrâneos, o caminho para a Europa, passando por Burkina Faso, Níger e Líbia, onde contou ter “sofrido muito”. Lá, quem não é pego pela polícia ainda pode cair nas redes de tráfico de pessoas: de acordo com a Organização Internacional para as Migrações, pelo menos 20 mil migrantes são mantidos em cativeiro em Trípoli.

Por mais de um ano, o malinês sobreviveu trabalhando com os amigos.

— Fomos apanhados, espancados, mas não desanimei — contou a Macron.

Se conseguem sobreviver, os migrantes ainda precisam pagar enormes quantias por um espaço em uma embarcação pequena e insegura, que pode não aguentar a jornada pelo Mediterrâneo até a Itália. Muitos morrem no mar.

Apoiada pela União Europeia, a Guarda Costeira líbia aumentou, no último ano, o número de interceptações, detendo os barcos antes que consigam chegar aos navios internacionais que os levarão à Europa. Mamoudou foi um deles. Finalmente conseguiu chegar à Itália em 2014.

Depois de algum tempo, segundo contou, decidiu ir atrás do irmão, Birama, de 54 anos, radicado na França. Seguiu por terra, e chegou a Paris há oito meses, sem documentos. Desde então, trabalhava clandestinamente na construção civil e vivia em um quarto de 15 metros quadrados, num abrigo para trabalhadores com uma estrutura de 430 camas. Montreuil, onde vive, é conhecida como “Pequena Bamako”, em referência à capital do Mali, por sua grande comunidade malinesa.

Em seu país natal, Mamoudou também foi celebrado. O ex-chanceler Abdoulaye Diop disse estar “orgulhoso” e que sua naturalização era “merecida”. O embaixador do Mali na França, por sua vez, elogiou a “coragem e valores” do seu “herói”. Em busca de um novo mandato, o presidente Ibrahim Boubacar Keïta afirmou que Mamoudou “honrava a todos no Mali”.

Porém, jornais do mundo inteiro começaram a questionar o uso político do malinês. “Para imigrantes extraordinários, a pátria agradecida. E os outros?”, perguntou o “Libération”. “Parece que você tem que ser um herói para ser digno de se tornar francês” afirmou a revista “Slate”. “Outros migrantes que deixam suas terras para se arriscar com contrabandistas, tortura e morte, valem menos que Mamoudou Gassama?”

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