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‘Quis se tornar uma lenda’, conta acadêmico sobre comerciante de escravos brasileiro de Benim

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RIO — Na biografia “Francisco Félix de Souza, mercador de escravos”, o acadêmico Alberto da Costa e Silva relata a vida do brasileiro que se tornou mercador de escravos de Benim e entrou para a História do país africano. O pesquisador explica que a sua poderosa figura dividiu opiniões no século XIX. Leia a sua entrevista ao GLOBO.

Como Francisco Félix de Souza se tornou tão importante para a História de Benim?

Desde sua chegada à África, Francisco quis tornar-se uma lenda. Ainda não se sabe o que o levou ao continente. Há quem diga que ele viajou como um funcionário real para proteger um forte português. Outros afirmam que ele era um foragido da polícia. Independentemente de qual história é verdadeira, sabemos que ele queria ser um milionário negociando mão de obra forçada, e conseguiu tornar-se o maior mercador de escravos da História contemporânea.

Foi, então, um personagem odiado?

Ele dividiu opiniões. Curiosamente, além de levar escravos para o Brasil, também recebeu aqueles que haviam sido libertos e queriam retornar ao continente de origem. Eram conhecidos como “agudás”. Muitos não sabiam onde ficava sua terra natal, porque o nome das aldeias era conhecido somente em regiões vizinhas. Francisco os ajudou a se restabelecer em uma grande porção da costa africana, que se estendia de Gana até a fronteira da Nigéria com Camarões. O tamanho dessa comunidade aumentou sua influência política no reino de Daomé, onde agora é Benim.

De que forma ele usava seu capital político?

Francisco tinha um poder incontestável — nem sequer precisava assinar ordens para vê-las cumpridas. Em 1818, forneceu armas que proporcionaram um golpe de Estado no reino, dando o trono ao seu amigo, o príncipe Gapê, que adotou o nome Guezo. Em troca, ele conseguiu o monopólio do comércio de escravos.

Muitos “agudás” devem ter ido para o Brasil por meios orquestrados por Francisco. Eles não se ressentiam disso?

Não. A escravidão era um fenômeno natural e aceito na comunidade. Quando era liberto, a primeira medida de um ex-escravo era comprar o seu próprio escravo. Não é de se surpreender que hoje Francisco seja homenageado com uma estátua e tenha sua trajetória explicada em museus.

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