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Grupos tentam estabelecer pontes nos EUA polarizados

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WASHINGTON — Reconstruir pontes. Este é o objetivo de diversos grupos que tentam restabelecer o diálogo na sociedade americana, em um dos momentos de maior polarização da História do país. Iniciativas surgem e se intensificam em muitas regiões e vão além da política: chegam à academia e ao mundo corporativo. Os especialistas dizem que está mais difícil promover a troca de ideias com tolerância; ao mesmo tempo, afirmam que nunca foram tão requisitados para ajudar a mediar debates entre pessoas que pensam de maneira oposta de maneira civilizada.

— Diálogo e convivência social são como um músculo. Se você não pratica, atrofia — resume Barby Moro, da ONG The Village Square (A Praça do Povoado), que promove conversas políticas pelo país. — Temos que lembrar que este país foi formado com base no diálogo, em concordar em discordar. O debate com ideias diferentes enriquece.

Ela conta que algumas regras básicas ajudam nos bate-papos que promove em Tallahassee, Flórida: agir com humor, não se levar tão a sério, e focar primeiro na situação da comunidade, já que não será do dia para a noite que todos os problemas nacionais serão resolvidos. Para que a troca de ideias possa fluir, duas normas ajudam: o “sino da civilidade”, tocado toda vez que alguém se sente ofendido, e a proibição de aplausos, vaias e outras manifestações do público.

— Sofro com a falta de manifestações, sou uma pessoa muito verbal, mas isso é importante para ouvirmos o outro — conta Barby, que valoriza o contato pessoal. — Nas redes sociais, as pessoas são mais agressivas. Quando estamos olho no olho, vemos que as palavras ferem. Precisamos de debates frente a frente.

As redes sociais são apontadas como uma das grandes causadoras da polarização atual. Mas não a única: políticos radicais e meios de comunicação muito segmentados, que repetem mensagens que grupos específicos querem ouvir, reforçam argumentos e visões consolidadas. A eleição apertada de Donald Trump, vitorioso apenas no Colégio Eleitoral, seu comportamento na Presidência — parte para o ataque contra quem pensa diferente —, e a disseminação de notícias falsas agravam a situação.

— Em nossos debates temos agora um checador de dados, que vai pesquisando os argumentos expostos para evitar informações falsas e mentirosas — afirmou ao GLOBO o embaixador Allan Katz, que fundou em 2006 a American Public Square (Praça Pública Americana), organização que visa a promover o debate entre democratas e republicanos.

Katz afirma que a deterioração do debate ocorre toda vez que as pessoas argumentam usando mais opiniões do que fatos, e lembra que a tradição de participação cívica dos EUA é baseada na troca de pontos de vista diferentes. Em um país que sempre valorizou a busca de consenso, seja nos (debates nas cidades), seja na forma como os júris decidem questões processuais (somente por consenso), retomar esta capacidade é fundamental.

— Nos debates conseguimos ver que a pessoa que pensa diferente de você não é um inimigo, não é alguém horrível, é uma pessoa normal — disse Katz.

A necessidade de combater estereótipos levou o estudante Joseph Touma, conservador de 19 anos, a criar em 2016, junto com sua colega progressista Clara Nevins, o projeto Bridge the Divide (Superando a Divisão), para promover debates no meio acadêmico.

— As pessoas prejulgam quem não pensa como elas. Mas, quando nos reunimos, vemos que temos muito mais em comum do que imaginávamos — disse Clara Nevins, cuja organização já conta com mais de cem embaixadores em 30 países. — Até o meio acadêmico está polarizado, precisamos reforçar o que nos une. Precisamos ter a mente aberta, não podemos ver o diferente como o mal, não podemos agredir as pessoas.

Leslie Gaines-Ross, uma das cem pessoas mais influentes em ética no meio corporativo dos EUA, segundo a “Ethisphere Magazine”, e chefe de estratégia de reputação da empresa de relações públicas Weber Shandwick, afirma que nunca tantas empresas a procuraram para fazer com que progressistas e conservadores trabalhem em projetos comuns no ambiente corporativo.

— As empresas são um dos últimos espaços democráticos nos EUA, pois as pessoas cada vez mais têm amigos, escolas e vivem em bairros onde todos pensam da mesma forma. Fazer com que pessoas de origens diferentes e visões diversas de mundo trabalhem juntas em um projeto é algo importante, para além do trabalho em si — disse.

Ela acredita que o novo posicionamento das empresas e de seus presidentes, que cada vez mais atuam contra o racismo e a discriminação de gênero, orientação sexual e religião, ajudam. Apesar do tom radicalizado do país, Leslie crê que vai melhorar.

— Estamos passando pelo pior momento recente de radicalização. Mas vejo uma necessidade de se retomar o diálogo, uma busca crescente por pontes entre os dois lados que me faz otimista.

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