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Presidente de Taiwan vai aos EUA para encontro histórico sob ameaças da China

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O republicano Kevin McCarthy, presidente da Câmara de Representantes dos Estados Unidos, recebeu a presidente de Taiwan, Tsai Ing-wen, nesta quarta-feira (5), na Califórnia, para um encontro simbólico que, segundo Taipé, mostra que a ilha não está isolada apesar das pressões crescentes de Pequim.

Em novo capítulo com potencial de alavancar as tensões geopolíticas na Guerra Fria 2.0, McCarthy se tornou o político dos EUA mais importante a se encontrar com um líder de Taiwan em solo americano desde 1979, quando a Casa Branca restabeleceu relações diplomáticas com Pequim.

A China considera Taiwan uma província rebelde e promete retomá-la pela força, se necessário. O regime chinês descreveu o encontro como provocação e prometeu uma resposta "resoluta", enquanto o republicano minimizou ameaças ao dizer que Tsai está de passagem em uma viagem informal e privada.

Os líderes não anunciaram acordos políticos ou econômicos no encontro, que teve o objetivo de transmitir a mensagem de que Taipé tem respaldo internacional. Aliada da Rússia e um dos principais rivais militares de Washington, Pequim vem aumentando a retórica contra a ilha nos últimos meses.

"Não estamos isolados", disse Tsai após se reunir a portas fechadas com líderes republicanos e democratas na biblioteca presidencial Ronald Reagan. "Eu enfatizei algo que Reagan [presidente dos EUA de 1981 a 1989] sempre defendeu: para preservar a paz, precisamos ser fortes".

McCarthy ecoou as declarações de Tsai, a quem chamou de grande amiga. Ele afirmou que as partes atuarão em conjunto para promover a liberdade econômica, a democracia e a estabilidade. Também enfatizou que os EUA são o principal fornecedor de armas à Taiwan e disse que foram discutidas alternativas para acelerar o envio de armamentos. Questionado se planeja visitar Taiwan, desconversou.

A presidente de Taiwan chegou aos EUA na terça-feira (4), depois de uma viagem à América Central. Ela foi recebida com manifestações favoráveis e contrárias na chegada ao aeroporto de Los Angeles e, depois, no entorno de seu hotel.

Horas antes do encontro, a Administração de Segurança Marítima da China anunciou o início de uma patrulha especial com embarcações da guarda costeira na altamente militarizada região do estreito de Taiwan.

Logo depois, militares taiwaneses informaram que o novo porta-aviões chinês, Shandong, passou pelas águas do sudeste de Taiwan para iniciar seu primeiro treinamento de viagem no Pacífico Ocidental. Os militares chineses já haviam divulgado o envio de contratorpedeiros e uma fragata para exercícios de tiro na região.

Não à toa, Tsai fez uma videoconferência com chefes militares sobre as movimentações de Pequim na terça, quando ainda estava em Belize. Já a porta-voz da chancelaria chinesa, Mao Ning, afirmou que a China seguirá de perto a situação e defenderá resolutamente a soberania e integridade territorial.

O secretário de Estado dos EUA, Antony Blinken, pediu a Pequim que não use a viagem de Tsai como uma desculpa para alimentar as tensões. "A viagem não é uma novidade", disse em Bruxelas, onde se reuniu com líderes da Otan, a aliança militar ocidental liderada pelos EUA.

Ainda assim o episódio deve escalar a crise, diz Bonnie Glaser, diretora do programa para a Ásia no think tank Marshall Fund. "A China já fez algumas declarações bastante ameaçadoras, o que me sugere que eles terão de responder. Caso contrário, Xi Jinping pode parecer fraco", afirmou à agência de notícias AFP.

Além da eventual resposta militar, o regime chinês convidou o ex-presidente taiwanês Ma Ying-jeou, hoje na oposição, para visitar a China continental em turnê que se sobrepôs aos dias em que a atual presidente esteve nos EUA e na América Central. O opositor também alegou que a visita era informal e que pretendia visitar a região de origem da sua família, mas se reuniu e posou para fotos com o diretor do Escritório para Assuntos de Taiwan, do regime chinês.

Ma Ying-jeou deu diversas declarações defendendo entendimento de Taiwan com Pequim para evitar o risco de conflito militar. A sombra de uma guerra através do estreito é o foco da campanha presidencial, que opõe os partidos de Tsai e Ma na eleição marcada para janeiro.

No ano passado, uma visita de Nancy Pelosi, que comandou a Câmara antes de McCarthy, levou ao cerco da ilha pelos militares chineses, numa escalada que resultou na derrota do partido de Tsai nas eleições locais, meses depois.

O apoio à ilha é um dos poucos consensos bipartidários no Congresso dos Estados Unidos e, durante o mandato de Tsai, essa relação se fortaleceu. Washington mantém uma ambiguidade estratégica em relação ao assunto, concebida tanto para evitar uma invasão chinesa quanto para dissuadir a ilha de provocar a China declarando-se independente.

Como a maior parte da comunidade internacional, Washington não mantém laços formais com Taiwan. Pequim, sob o princípio de uma só China, não aceita que nenhum país tenha relações diplomáticas com ela e com Taiwan ao mesmo tempo.

Ainda assim, os americanos continuam sendo o maior aliado estrangeiro de Taiwan. As duas administrações se aproximam cada vez mais nos últimos anos, quando o regime chinês aumentou a pressão sobre a ilha para aceitar o domínio da parte continental do país.

O elo com Washington é uma fonte de tensão nas relações sino-americanas --já bem abaladas por fatores que vão do cerco dos EUA a empresas chinesas à expansão militar americana no Sudeste Asiático.

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