RIO — Apesar da longa luta pela sobrevivência política, o presidente da África do Sul, Jacob Zuma, se vê sob risco de afastamento forçado do cargo pelo seu próprio partido. A direção do Congresso Nacional Africano (CNA) convocou uma reunião especial, para amanhã, do seu Comitê Executivo Nacional. O órgão poderá decidir defenestrar Zuma, sob pressão interna e externa por causa de acusações de corrupção. Ontem, houve protestos em que manifestantes pró e contra Zuma entraram em confronto.
Este é o momento de maior pressão sobre o chefe de Estado, que no domingo se recusara a pedir demissão em encontro com seis líderes do CNA. Tanto a oposição como uma ala dissidente do partido governista querem vê-lo fora do cargo antes do discurso anual sobre o Estado da Nação de quinta-feira. No fim do ano passado, Zuma já fora substituído na liderança da legenda por seu vice-presidente, Cyril Ramaphosa, que poderia ocupar o cargo imediatamente — e já é apontado como favorito à Presidência para as eleições de 2019.
CRISE POLÍTICA, ECONÔMICA E MORAL
Há nove anos no poder, Zuma está a pouco mais de um ano do fim do seu segundo e último mandato. Aos 75 anos, nega 18 acusações por corrupção, fraude, extorsão, lavagem de dinheiro e evasão de impostos. Ele e outras autoridades são investigados por supostamente terem recebido propinas pela compra de jatos militares, barcos de patrulha e outros equipamentos por meio de 783 pagamentos num negócio na década de 1990. As denúncias emergiram em 2005 e foram retiradas por procuradores quatro anos depois. Mas, no ano passado, acolhendo o pedido da opositora Aliança Democrática, o Tribunal Superior decretou que Zuma deveria responder por elas.
Num momento desafiador para o CNA, cuja popularidade cai frente à frustração da população com o que considera serem decepcionantes resultados no combate à pobreza — a taxa de desemprego já se aproxima de 28% — a insatisfação interna com a liderança de Zuma nunca foi tão grande. O partido já perdeu o controle de várias cidades em 2016 e poderá ver-se obrigado a formar um governo de coalizão no ano que vem. Em agosto passado, o presidente chegou a sobreviver, por pouco, a um voto de desconfiança do Parlamento. Entretanto, segundo Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na FGV/SP, ele se vê diante de um teste mais duro agora, fora da liderança partidária:
— Muitos acharam que Zuma cairia bem antes, mas ele tem se mostrado extremamente hábil em se manter no poder. Apesar da baixa aprovação e do legado negativo, a demora deste processo em puni-lo mostra que ele se enraizou com laços que ainda o protegem. Mas parece possível que isso tenha fim agora, com pressão crescente da sociedade, da comunidade internacional e dos investidores estrangeiros — avalia Stuenkel.
Dividido, o CNA tem muitos membros concentrando suas esperanças em Ramaphosa, com a indicação de que o escolheriam para presidente da próxima legislatura. Embora o vice já tenha recebido apoio de Zuma, desponta como o seu mais flagrante rival. Antes um conhecido sindicalista e hoje magnata, foi eleito em dezembro para a liderança do partido com estreita vantagem, impulsionada pela sua plataforma anticorrupção, impondo mais um obstáculo de isolamento a Zuma.
Caso o presidente seja obrigado a abandonar o poder, Ramaphosa provavelmente governaria até o fim do mandato, antes de tentar a eleição de fato. Na África do Sul, é o Parlamento que elege o presidente em votação indireta, e o CNA, que tem a maioria na Casa desde o fim do apartheid nos anos 1990, acaba indicando na prática quem vai comandar o país. Apesar da crise no partido, ainda não há adversário capaz de ameaçar Ramaphosa.
Para Stuenkel, a troca poderia dar fôlego aos investimentos e à influência sul-africana na região; no entanto, seria um passo pequeno na “crise política, econômica e moral nacional”:
— Ramaphosa é visto como bem intencionado, mas não significa que será um bom presidente. É uma mudança simbólica, porque os problemas são estruturais e o grau de erosão da democracia é muito sério. Nenhum presidente poderia mudar isso rapidamente.

