NOVA YORK - O despencar da criminalidade na maior metrópole americana e a ação esta semana do Departamento de Polícia de Nova York (NYPD, na sigla em inglês), que evitou um massacre maior pelo imigrante uzbeque Sayfullo Saipov, ajudam a entender a liderança folgada de Bill de Blasio na disputa pela reeleição nas eleições de terça-feira. Ainda mais crucial, diz a cientista política Maria Haberfeld, coordenadora do Departamento de Leis, Ciências Políticas e Justiça Criminal da Universidade John Jay, foi a decisão do prefeito de ampliar o que seus antecessores já haviam detectado: a necessidade de a corporação ser etnicamente tão diversa quanto a população por ela servida.
— A NYPD é hoje a corporação mais diversa etnicamente do planeta, por conta de um programa de recrutamento iniciado nos anos 1990 para transformar o perfil de uma força então homogênea, branca, com imagem repressora — diz. — A força da corporação vem do mix de investimento em treinamento e equipamento com sua diversidade humana. Os policiais são, na maioria, multilíngues e sensíveis às diferenças não apenas étnicas, mas também religiosas da metrópole.
Há quatro anos seria difícil acreditar que De Blasio teria como cabo eleitoral, ainda que acidental, a polícia. Severo crítico do policiamento preventivo — acusado por moradores de abusivo — em regiões com população majoritariamente latino-americana ou negra, o democrata foi recebido com antagonismo pelo grosso dos 36 mil policiais responsáveis pela segurança de 8,5 milhões de habitantes. O presidente do principal sindicato chegou a acusar De Blasio de ter sangue nas mãos após o assassinato de dois policiais no Brooklyn, um de origem chinesa e outro latino-americana, por um homem negro inconformado com a absolvição de um oficial branco que asfixiou até a morte um camelô em uma batida contra o comércio ilegal.
De lá para cá, a prefeitura contratou 2 mil policiais das mais variadas etnias, e as temidas batidas preventivas foram substituídas pelo patrulhamento à pé e constante nos bairros mais pobres por policiais com vínculos com as comunidades locais. Os resultados estão na diminuição em 22% de assassinatos e 20% de vítimas por armas de fogo. Mais impressionante: a redução de delitos nos locais atendidos pelas patrulhinhas se deu em ritmo dez vezes maior do que nos demais. A força de contraterrorismo da cidade é a maior dos EUA.
— Ainda há ruas perigosas, violência e um número recorde de sem-teto. Mas, desde os atentados terroristas de 2001, se criou aqui a cultura de convivência dos moradores com policiais com armamento pesado sem que isso necessariamente significasse opressão aos direitos civis — diz Haberfeld, que segue: — Inclua na receita o policiamento mais próximo dos moradores, feito por pessoas que se identificam com eles, e há uma maior confiança dos nova-iorquinos em uma polícia ainda imperfeita mas mais colorida etnicamente.

