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‘Piñera não poderá fingir que não está vendo as mudanças sociais’, diz ator chileno

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BUENOS AIRES. Os protagonistas de “Uma mulher fantástica” garantem que não se trata de um filme militante, mas admitem que esperam que o vencedor do Oscar ao melhor filme estrangeiro ajude o a dar passos importantes, como a aprovação da lei de identidade de gênero. Em entrevista ao GLOBO, o ator , que interpreta Orlando, o protagonista masculino que tem uma relação com Marina, uma transexual que luta para ser reconhecida como sua mulher após a morte de seu grande amor, assegurou que “a direita deve entender as novas demandas” da sociedade chilena.

O Chile está mudando rapidamente, em muitas coisas. E a política foi perdendo espaço na sociedade. Veja, por exemplo, a cada vez mais expressiva imigração estrangeira de países como Haiti, Venezuela e Colômbia. Esse processo pode nos levar a um movimento de inclusão cultural maravilhoso, ou ao crescimento do racismo. Tudo dependerá da capacidade do Estado de assumir suas responsabilidades. O governo deve estar atento a essas mudanças, não pode ignorá-las.

Sim, é muito interessante isso. Há algumas décadas, enfiaram na cabeça dos chilenos que nós somos de um grande país, desenvolvido, excepcional, de sucesso, o país do milagre chileno. Só que a verdade é que não somos desenvolvidos, nunca ganhamos a Copa do Mundo, nunca nada. E de repente um filme chileno ganha o Oscar, e foi uma explosão de alegria. Para nós, é muito gratificante, porque mostra que os chilenos, a sociedade, não os políticos, se conectaram com a mensagem que tentamos transmitir. O motor do filme é um personagem transexual, mas o filme vai muito além disso. O filme questiona a capacidade dos seres humanos de aceitar o diferente. O diferente pode ser um transexual, ou um imigrante. Nós nos perguntamos e perguntamos ao espectador como estamos para nos conectar com o desconhecido? Podemos nos entregar a uma experiência de vida diferente, a outras belezas? É um filme que fala sobre a realidade do Chile e de muitos outros países. Tem a ver com integração e aceitação. É um assunto muito atual, em momentos de Trump nos Estados Unidos e outros governos do tipo na Europa. Hoje existe uma tendência a fechar fronteiras físicas, culturais, espirituais e intelectuais. O filme vai na contramão disso. É um filme poético, bonito, uma história de amor entre um transexual e um hétero.

Não. Nossa intenção não foi fazer um filme para conseguir a aprovação de uma lei, mas claro que sabemos que vai ajudar. Esta semana aconteceram coisas absurdas, como o fato de a protagonista, Daniela Vega, não poder ser homenageada no município onde nasceu porque seu nome no documento de identidade é Daniel. Não podiam colocar Daniela no diploma, se o nome é Daniel, algo ridículo. Acho que o filme vai ajudar a resolver situações como essa, mas também outras, como a imigração.

O governo Piñera não poderá fingir que não está vendo estas mudanças. Imagino que assumirá estas demandas, porque não pode ignorá-las, mas oferecerá suas próprias soluções. Deverá estar aberto a um diálogo permanente. O problema é sua visão e a existência de um pinochetismo radical em seu interior. Ou fazem um governo liberal ou estarão perdidos. Os eleitores de Piñera votaram pensando na economia e movidos pela publicidade de campanha. A partir de agora, começa um novo capítulo. As mudanças levam tempo, mas a direita não pode desconhecer situações como a crise da educação. São processos demorados, mas tudo acaba acontecendo. Há alguns anos não tínhamos ainda lei de divórcio e hoje já temos. A direita entendeu e vai ter de entender as novas demandas sociais.

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