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Perfil: Josep Lluis Trapero, chefe da polícia da Catalunha

RIO - Seu pai era um taxista, oriundo de Valladolid, no coração da região de Castela e Leão. No entanto, Josep Lluis Trapero, que cresceu num bairro operário de Santa Coloma de Gramenet, nos arredores de Barcelona, é descrito por seus admiradores na Catalunha como “um catalão puro-sangue”. A denominação não veio por acaso: à frente dos Mossos d’Esquadra, a força de segurança da região, Trapero conseguiu reverter a tradicional desconfiança da população na polícia, e transformar-se num herói do nacionalismo catalão cuja imagem agora estampa camisetas usadas por jovens manifestantes.

Sua atuação após os atentados jihadistas que deixaram 13 mortos e mais de 130 feridos nas Ramblas, a principal avenida de Barcelona, foi determinante para que o chefe dos Mossos d’Esquadra caísse nas graças da população. Sua rapidez nas investigações e a transparência na divulgação de informações lhe renderam elogios, mas foi a postura firme que fez dele um herói para a população local.

— Apesar da grande atuação de Trapero e dos Mossos, boa parte da imprensa espanhola quis menosprezar sua atuação e culpar a força policial pela tragédia, sugerindo que ela poderia ter sido evitada, e só aconteceu por negligência das forças locais — conta o jornalista catalão Pere Cardús. — Trapero encarou os jornalistas e questionou editores, acusando-os de buscar um bode expiatório e de realizar um campanha de difamação contra a polícia local.

Durante as intermináveis coletivas de que participou nos dias que se seguiram ao atentado, um jornalista criticou Trapero por responder às perguntas em catalão:

— Se a pergunta for feita em catalão, responderei em catalão — retrucou o chefe de polícia. — Se for feita em castelhano, responderei em castelhano.

Diante da reação do frustrado repórter, que se levantou para deixar a sala de conferência, Trapero deu a resposta que o elevou a um status de celebridade na Catalunha, e fez com que seu rosto e suas palavras ilustrassem camisas, bonés e cartazes:

— Bueno, pues molt bé, pues adiós (“Bem, muito bem então, adeus”, misturando catalão e castelhano).

Diante do dilema de ter que agir para evitar que seus conterrâneos votem no referendo de amanhã, o chefe dos Mossos d’Esquadra usou o Twitter para garantir que a ordem judicial de impedir que prédios públicos fossem usados como centros de votação não seria seguida a ferro e fogo. Em uma mensagem, destacou que “o cumprimento das instruções não exclui a responsabilidade profissional de contemplar se aplicá-las pode levar a consequências indesejadas.”

— Sabe-se que ele não irá simplesmente ignorar uma ordem judicial. Acho que a polícia ficará longe de pontos com grande presença de eleitores, e talvez confisque urnas ou proíba o voto em seções mais vazias — diz Cardús. — Trapero é visto como alguém que não teve medo de desafiar grandes poderes em nome da racionalidade, e isso tem um efeito sobre a população.

Um grande sinal de que não se dobraria ao governo central veio no início da semana, quando o Ministério do Interior espanhol anunciou a intenção de incorporar as forças catalãs em todas as operações para impedir o referendo. “Não aceitaremos coordenação”, afirmou Trapero em nome dos Mossos.

— Trapero parece mais preocupado em ser político do que ser policial — criticou o líder do Partido Popular na Catalunha, Xavier García Albiol. — E isso é um problema.

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