BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS) - Na primeira Cúpula do Mercosul realizada por videoconferência, devido à pandemia de coronavírus, o Paraguai transmitiu nesta quinta-feira (2) a presidência temporária do bloco para o Uruguai. A reunião marcou também a primeira vez em que os presidentes de Brasil, Jair Bolsonaro, e Argentina, Alberto Fernández, encontram-se, ainda que de modo virtual. Ambos os mandatários haviam trocado farpas durante a campanha eleitoral argentina, no ano passado, quando Bolsonaro apoiou o então presidente Mauricio Macri. O líder brasileiro não foi à posse de Fernández e, mesmo após mais de seis meses de mandato do argentino, não manteve diálogo direto com o chefe de Estado do vizinho mais importante do Brasil. Durante a cúpula, enquanto Bolsonaro apenas mencionou as dificuldades criadas pela crise da Covid-19, o tema foi o principal assunto tratado por Fernández. Bolsonaro leu seu discurso acompanhado do chanceler Ernesto Araújo e do ministro da economia, Paulo Guedes. Nele, reforçou que o Brasil estava avançando nas reformas para atrair investimentos e disse que a da Previdência havia sido uma "conquista histórica". Também afirmou que instruiu membros do governo a "desfazer opiniões distorcidas sobre o Brasil" no exterior, elogiou a liderança temporária do bloco pelo Paraguai e desejou sorte a Luis Lacalle Pou. O presidente uruguaio, que assumiu o cargo em março, estreou em reuniões do Mercosul. Bolsonaro encerrou dizendo que espera que a Venezuela "retome o caminho da liberdade". Já Alberto Fernández discursou da sala de audiências virtuais montada na residência de Olivos, em Buenos Aires. Ele está confinado no local devido a recomendações médicas após pessoas próximas a ele terem contraído o coronavírus. Durante sua fala, tratou basicamente da pandemia e da ideia de que "é preciso reforçar a ideia da América Latina como um só país, como foi a ideia de [Simón] Bolívar e de [José de] San Martín", heróis da independência de diversos países hispano-americanos. Também afirmou que o coronavírus "derrubou tudo, apareceu de repente e revirou o mundo", enfatizando que a crise econômica que virá depois não será apenas da Argentina, mas de todo o bloco. "A crise que virá será mundial e de dimensões nunca vistas." Por isso, argumenta, a integração regional deveria colocar o foco na eliminação das "arestas" entre as relações dos governos. "A reunião do Mercosul é uma reunião dos nossos povos, isso deve ser colocado adiante daqueles que governam hoje", pedindo que a questão ideológica ficasse num segundo plano nas discussões. Fernández também evocou o espírito da fundação do bloco, "um esforço original dos ex-presidentes Raúl Alfonsín [Argentina] e José Sarney [Brasil], depois acompanhado pelo Uruguai e o Paraguai". Abdo Benítez, presidente do Paraguai, discursou sobre o coronavírus com dramaticidade, dizendo que a pandemia era um "flagelo" para a região e que seria necessária uma "plena integração regional para reativar nossas economias". Deu como bom exemplo a integração da indústrias automobilísticas e o aumento do comércio digital. Já o uruguaio Lacalle Pou, em sua intervenção de estreia, disse que "não podemos ser 'mercopessimistas' nem 'merco-otimistas', e sim 'mercorrealistas'", e que uma das prioridades seria afinar as discordâncias surgidas nos debates sobre o acordo do bloco com a União Europeia. Depois das falas iniciais, os presidentes passaram a uma reunião interna, à qual a imprensa não teve acesso. Nos últimos seis meses, o bloco esteve em segundo plano, uma vez que a pandemia do coronavírus se impôs como preocupação regional. Assim, a Argentina também anunciou, no fim de abril, que se afastaria de "novas negociações" do bloco com outros países, e a gestão de Fernández colocou ressalvas no acordo assinado, mas ainda não aprovado, do Mercosul com a União Europeia. Na abertura da cúpula, na quarta-feira (1º), o chanceler argentino, Felipe Solá, reforçou que essa posição não significa a saída da Argentina do Mercosul, mas que o país apenas será mais exigente sobre os impactos de novos possíveis pactos. O Uruguai assume a presidência do bloco depois de uma crise interna na cúpula do governo, iniciada há algumas semanas, quando o ministro das Relações Exteriores do país, Ernesto Talvi, recebeu a informação de Lacalle Pou de que seria afastado do cargo. Na reunião dos chanceleres, na quarta, Talvi postou sua carta de demissão nas redes sociais. Membro do Partido Colorado e ex-candidato a presidente, ele vinha enfrentando diferenças em relação a Lacalle Pou, do Partido Nacional. Talvi tem intenção de presidir a legenda da qual faz parte, e isso seria impossível à frente do Ministério das Relações Exteriores. Sua gestão como chanceler, porém, foi muito elogiada, por conta da repatriação exitosa de uruguaios no exterior durante a pandemia do coronavírus e no trato com estrangeiros que estiveram inicialmente impedidos de desembarcar de cruzeiros no porto de Montevidéu. Talvi organizou o resgate e a repatriação por meio de uma operação de saúde e de logística considerada um sucesso.