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Parte da oposição do Peru já quer adiantar eleições após saída de Kuczynski

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LIMA - Enquanto esperavam a volta ao país do vice-presidente Martín Vizcarra, de 55 anos, que toma posse em Lima, os peruanos aguardavam os desdobramentos da renúncia de Pedro Pablo Kuczynski (conhecido como PPK), um dia após deixar o cargo em meio a acusações de receber propina da Odebrecht e de comprar votos no Congresso. A grave crise política tomou conta do país, que já vive um clima de rejeição a toda a classe política, deixando um limbo e um mar de perguntas sem respostas sobre o novo mandato que, a princípio, deve durar três anos e meio.

Enquanto o porta-voz do maior partido opositor no Congresso, Daniel Salaverry, pedia união, nomes como o da ex-candidata presidencial e líder do Novo Peru, Verónika Mendoza, começaram a pressionar pela antecipação de eleições.

— Nossa classe política tradicional transformou nosso Estado em alvo de pilhagem. PPK não é uma vítima, é corrupto e imoral — disse Mendoza, terceira colocada no último pleito, em entrevista coletiva. — É preciso renovar a classe política, esse sistema podre. Precisamos de uma transição democrática, a de 2000 (após a queda de Alberto Fujimori) foi incompleta.

Uma pesquisa da consultoria GFK, realizada antes da renúncia e publicada na quinta-feira, indica que 49% dos entrevistados desejavam também a saída de Vizcarra, caso PPK deixasse o poder, e pediam novas eleições — apenas 26% apoiam que o vice assuma. Por outro lado, a pesquisa indicou que o Congresso tem apenas 11% de apoio popular, com índice recorde de desaprovação, apontando descrédito generalizado dos políticos.

Kuczynski, de 79 anos, tem a imunidade presidencial garantida até que o Congresso aceite formalmente sua renúncia e Vizcarra tome posse. Mas, na quinta-feira, a Comissão Especial Anticorrupção solicitou à Justiça que impeça sua saída do país. O pedido foi apresentado ao Tribunal de Investigação Preparatória Nacional, onde tramitam os casos de corrupção vinculados ao escândalo da Lava-Jato, de acordo com fontes do Ministério Público.

Mas, se há três meses, a promessa de Vizcarra de que renunciaria caso Kuczynski fosse removido ajudou a frear sua destituição — pelo risco de que o poder caísse nas mãos do fujimorismo — desta vez, o vice-presidente deixou claro que não deixaria o cargo: “Estou indignado pela situação atual, como a maioria dos peruanos. Mas tenho a convicção de que juntos demonstraremos mais uma vez que podemos seguir em frente”, escreveu na noite de quarta-feira.

Vizcarra afirmou que em dez dias deverá ter os nomes que formarão seu novo Gabinete. Para analistas, no entanto, as possibilidades que ele terá para governar ainda são incertas.

— Martín Vizcarra tem que aprender a lição deixada por Kuczynski. Necessita construir uma base que seja suficientemente estável para conseguir governar — explicou o analista político Martín Tanaka ao jornal “El Comercio”. — Ainda assim, a profundidade e a gravidade da situação, paradoxalmente, podem lhe dar um certo fôlego, já que ninguém quer derrubar um presidente que acaba de assumir.

Para Paula Muñoz, professora de Ciências Sociais da Universidade do Pacífico, a relação com o Congresso já não dependerá apenas do governo, mas de como se reacomodem as forças no Parlamento. Kuczynski, um ex-banqueiro eleito em 2016, renunciou na quarta-feira por acusações de corrupção enquanto o Congresso, dominado pela oposição, tramitava um pedido para destituí-lo que seria votado na própria quinta-feira.

— Não convém à Força Popular (bloco da líder oposicionista Keiko Fujimori) que continue se apresentando como uma força de obstrução. Nesse sentido, a escolha do novo primeiro-ministro será chave. Deverá ser uma figura que não gere rechaço em nenhum setor e que possa convocar diferentes personalidades.

O cientista político Carlos Meléndez concorda que o novo governo precisará de pluralidade.

— A única forma de ter mais oxigênio político é essa. E para ter um Gabinete potente, Vizcarra necessitará de pessoas da esquerda e da direita, mas também daqueles que apoiaram a Pedro Pablo Kuczynski. O pior que ele pode fazer é se converter em oposição ao oficialismo — explicou ao “El Comercio”. — Ele deve resgatar o que este governo fez de bom, até porque também é parte dele. O incerto é quanta ascendência o novo presidente poderá ter frente a membros da bancada oficialista.

A comunidade internacional, por sua vez, vê o processo com preocupação. Em comunicados, México e Colômbia lamentaram a renúncia de Kuczynski e disseram acreditar que a transição prevista na Constituição trará estabilidade à região. Na Venezuela — cujo governo foi duramente criticado por PPK — o vice-presidente do Partido Socialista Unido de Venezuela, o chavista Diosdado Cabello, comemorou com fogos de artifício a renúncia.

Já a Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA, advertiu para uma “possível violação das garantias do processo de destituição e do direito de ampla defesa do presidente Pedro Pablo Kuczynski”.

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