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Chegada de Bolton confirma guinada agressiva do governo Trump

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WASHINGTON Donald Trump precisou de apenas três semanas para dar uma guinada em seu governo para a direita. O movimento foi culminado nesta quinta-feira com o anúncio da saída do general H.R. McMaster do posto de conselheiro de Segurança Nacional do país. Agora a Casa Branca está controlada por pessoas consideradas linha-dura e ultraconservadoras em postos-chave. Com a chegada de John Bolton — ex-embaixador de George W. Bush na ONU — a política externa americana passa a ser comandada por ultranacionalistas, sem moderados que funcionavam como contraponto às ideias do presidente.

— A ala moderada de política externa do governo americano praticamente acabou, e agora há o domínio de pessoas com posturas mais nacionalistas e agressivas — avaliou ao GLOBO Juan Carlos Hidalgo, analista de políticas públicas do Cato Institute. — O irônico desta mudança é que Trump, que durante toda a campanha criticou a invasão do Iraque, chama para o posto de conselheiro de Segurança Nacional o homem que é grande ideólogo dessa guerra.

Bolton, de 69 anos, ficou famoso por ser um dos grandes artífices da guerra contra o terror. Foi embaixador americano na ONU entre agosto de 2005 e dezembro de 2006 e atuou para retirar os EUA do Tribunal Penal Internacional, classificando esse dia como o “mais feliz” de sua vida. Ele também esteve por trás da retirada do brasileiro José Bustani do cargo de chefe da Organização para a Proibição de Armas Químicas (Opaq).

— O período de Bolton na ONU pode ser classificado como um desastre, ele é um tipo completamente ideológico — afirmou Erick Langer, professor de História de Georgetown University, em Washington. — Sua ida para o Conselho de Segurança Nacional piora a tensão global, ele é uma pessoa muito agressiva.

Durante o governo de Barack Obama, Bolton voltou a advogar e a defender interesses ultranacionalistas em diversos centros de pesquisa americanos. Em 2011, por exemplo, classificou as reivindicações para a criação de um Estado palestino como “uma manobra”. Há poucos dias, publicou no “Wall Street Journal” um artigo defendendo um “ataque militar preventivo” à Coreia do Norte. Sem fé em negociações bilaterais e cooperação internacional, Bolton se opõe fortemente ao acordo nuclear com o Irã.

O tema é um dos principais pontos em que diverge de McMaster e deve representar uma real mudança de postura, pois outro defensor do acordo costurado por Obama, o ex-secretário de Estado Rex Tillerson, deixou o governo na semana passada, substituído por Mike Pompeo. Até então no comando da Agência Central de Inteligência (CIA), Pompeo também se opõe ao acordo com o Irã.

Segundo a imprensa americana, o general vinha discutindo com o governo sua demissão há semanas. A saída teria sido decisão mútua e serve para Trump recompor sua equipe antes da controversa cúpula com o ditador norte-coreano, Kim Jong-un.

A gota d’água nas tensões entre McMaster e o presidente, há meses brigando por causa da postura unilateralista de Trump na política externa, foi a decisão do presidente de felicitar Vladimir Putin por sua reeleição na Rússia. McMaster havia dito expressamente que Trump não deveria ligar para o russo, maior antagonista dos EUA e acusado de interferir na eleição de 2016. O presidente o ignorou e alardeou o contato que fez com o chefe do Kremlin.

“Tenho o prazer de anunciar que, a partir de 4 de abril, @AmbJohnBolton (perfil de John Bolton na rede) será meu novo Conselheiro de Segurança Nacional. Eu sou muito grato pelo serviço do general H.R. McMaster, que fez um excelente trabalho e sempre será meu amigo”, tuitou o presidente americano na noite de quinta-feira.

Além da saída de Tillerson, considerado moderado por defender o acordo com o Irã e ser contrário à saída dos EUA do Acordo Climático de Paris, o governo Trump não conta mais com Gary Cohn, que até o começo do mês era o principal conselheiro econômico do presidente. Ele saiu do governo por não concordar com a sobretarifa para o aço, anunciada por Trump. Ontem, horas antes do anúncio das mudanças na Casa Branca, Trump abriu uma nova frente de combate com a China, criando impostos para a importações de US$ 60 bilhões do gigante asiático e restringindo investimento americano no país.

— Com esta mudança, apenas o secretário de Defesa, o general Jim Mattis, continua como voz moderada na área de segurança e política externa do governo — afirma Hidalgo.

Esta é a terceira mudança na chefia do Conselho de Segurança Nacional — um dos setores mais importantes do governo americano — nos 14 meses de Donald Trump na Casa Branca. O primeiro titular do cargo no governo republicano, Michael Flynn, não ficou um mês no posto, por causa de relações nebulosas com os russos e por ter mentido ao vice-presidente Mike Pence. Apesar de ter retirado Flynn da Casa Branca, Trump chegou a pedir ao ex-diretor do FBI James Comey de livrá-lo das investigações, o que pode complicar o presidente, acusado por muitos de tentar obstruir a Justiça.

Esta também é a vigésima mudança no primeiro escalão do governo americano, recorde na História moderna para presidentes com até este momento de mandato. Se a primeira leva de assessores era formada pelos membros da campanha de Trump, depois houve um momento de “domínio de generais” no governo e agora há, segundo especialista, a fase dos ultraconservadores e nacionalistas.

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