Início Mundo Para convencer Trump a manter acordo nuclear com Irã, Macron já admite mudar termos
Mundo

Para convencer Trump a manter acordo nuclear com Irã, Macron já admite mudar termos

Envie
Envie

WASHINGTON — Emmanuel Macron tentou apaziguar os ânimos e afirmou, ontem em Washington, que a França aceita negociar um novo acordo nuclear com o Irã, dias após ter afirmado que não existia “plano B” para o caso. Defendendo uma solução política e multilateral para a situação, o presidente francês não apenas ficou no meio de uma escalada crescente de acusações entre os EUA e o Irã, como teve de engolir a crítica que Donald Trump fez ao pacto vigente, firmado na gestão de Barack Obama e defendido pelos europeus: segundo o republicano, o acordo é “terrível”, “insano” e “ridículo”, e jamais deveria ter sido assinado. Para especialistas, garantir uma sobrevida de seis meses para o acordo, em troca de novas negociações, já seria uma vitória para o francês e uma brecha para Trump manter seu discurso duro.

Cercado de assessores que criticam o acordo nuclear de 2015 — no qual os iranianos se comprometem a desistir do desenvolvimento de tecnologia nuclear militar em troca do fim do embargo econômico, aceitando inspeções internacionais — Trump reagiu com fúria às notícias de que Teerã pode abandonar o pacto. O governo americano tem até 12 de maio para decidir se renova o acordo, assinado também por Reino Unido, Rússia e China, além da França. Oficialmente, esta tem de ser a decisão final, embora especialistas acreditem haver espaço para novos adiamentos. Horas após o presidente do Irã, Hassan Rouhani, alertar que os Estados Unidos “enfrentarão consequências severas” se saírem do acordo, Trump reagiu no mesmo tom:

— Todos conhecem minha posição sobre o acordo com Irã, é um acordo terrível. É um desastre. — definiu o presidente, que critica o fato de o pacto não tratar de temas delicados, como o desenvolvimento de mísseis balísticos por Teerã ou o envolvimento dos iranianos nos conflitos em Síria e Iêmen. — Eles terão problemas maiores do que nunca tiveram (se retomarem o programa nuclear).

Trump chegou a dizer que tudo que acontece de ruim no Oriente Médio “tem a impressão digital iraniana”. Depois de ter afirmado, ainda em Paris, que “não havia plano B” para o acordo nuclear, o presidente francês abriu um espaço para a discussão de um novo arranjo:

— Nós queremos trabalhar a partir de agora em um novo acordo para o Irã — ponderou Macron, ao lado de Trump, defendendo o acordo firmado em Viena, visto por muitos como um modelo de se resolver uma crise nuclear com negociação e diplomacia.

Antes de pousar em Washington, Macron disse que também “não estava satisfeito” com o Irã e que queria conter sua influência na região e lutar contra o desenvolvimento de seus mísseis balísticos. Essa nova postura do francês pode dar uma saída ao americano diante do impasse:

— Trump parece aberto a um novo pacto com os aliados europeus para preservar o acordo nuclear do Irã, expandindo os termos para restringir o desenvolvimento de armas e suas atividades na região, proposta de Macron — disse ao GLOBO Maxime Larive, pesquisador do Centro da União Europeia da Universidade de Illinois. — A dinâmica franco-americana é bastante interessante. Macron tem contatos diretos com a Turquia e o Irã e, em certa medida, com a Rússia, enquanto Trump mantém um bom relacionamento com a Arábia Saudita e Israel. A coordenação entre Washington e Paris com esses países-chave pode ser fundamental.

De fato, Ronald Suny, professor da Universidade de Michigan, acredita que a posição do Irã está fragilizada pelo fato de Trump estar totalmente alinhado a sauditas e israelenses — para quem Teerã é uma ameaça. Diversas reportagens na imprensa americana nos últimos dias ligam, inclusive, amigos de Trump a negócios privados com o reino saudita, que não quer ver o Irã ampliando sua influência no mundo árabe. E lutar contra a realidade do Oriente Médio, às voltas com a crise síria, não ajudará:

— Os EUA precisam encarar a realidade: perdemos na Síria; Assad, os russos e o Irã venceram. A brutalidade e uma ditadura cruel venceram as forças populares pela democracia, a oposição islâmica e as favoráveis à autonomia das minorias. Para salvar um pouco dessa situação trágica e catastrófica, talvez o Ocidente possa pelo menos proteger os curdos e seu movimento no Norte, que ajudaram na luta contra o Estado Islâmico e querem construir um regime democrático em sua região — afirmou o especialista ao GLOBO.

Pressão sobre trump deve aumentar

Apesar de alertar que Macron e Angela Merkel — que visitará Trump depois de amanhã — podem convencer o presidente americano das vantagens do acordo, Suny acredita que o republicano poderá priorizar a opinião dos assessores “linha-dura” e seu lado populista:

— Trump pode ceder às forças de direita que o impeliram à Presidência ou aceitar a esmagadora evidência de que o acordo está dando certo. Infelizmente, não estou muito confiante de que o presidente pense com clareza.

No outro lado do Atlântico, mais de 500 deputados britânicos, alemães e franceses pediram a seus colegas americanos que exijam que Trump mantenha o acordo vivo. O que indica que a pressão e a incerteza deverão continuar até meados de maio, com consequências muito além de Teerã.

Siga-nos no

Google News