Os temas não poderiam ser mais duros: guerra na Síria, acordo nuclear do Irã, protecionismo comercial, além de divergências sobre o papel do multilateralismo, a questão ambiental e a dicotomia entre diplomacia versus força militar. Mas, na entrevista coletiva de ontem com Donald Trump e Emmanuel Macron, na primeira visita de Estado em que o republicano apareceu como anfitrião, o clima era de amizade.
— Gosto muito dele — disse Trump, após trocar beijos no rosto com o francês e provocar risos da plateia na Casa Branca, formada por autoridades dos dois países e jornalistas.
A forma como os dois líderes se cumprimentam, aliás, mostra a evolução da relação para algo que os americanos chamam de , união das palavras em inglês e : uma relação afetiva próxima, algo além da amizade, porém sem conotação sexual. O beijinho de ontem, seguido por apertos de mão afetuosos e uma saída do local da entrevista com o francês com as mãos sobre os ombros do americano comprovam isso.
No primeiro encontro, há quase um ano, em Bruxelas, ficou famoso o longo aperto de mãos entre ambos: Trump tem a fama de usar de sua força para constranger a pessoa em seu primeiro contato, impondo sua “superioridade”. Macron, sabedor disso, resolveu desafiá-lo e manteve o cumprimento por muito mais tempo que o normal, também usando força. Isso, de cara, parece ter despertado o respeito do republicano. Na segunda-feira, ao ser recepcionado por Trump, Macron o surpreendeu com os dois beijos no rosto, no tradicional estilo francês. Desde então, a amizade parece marcar a relação.
— Estamos entusiasmados que a primeira visita oficial da minha Presidência não é apenas com um grande amigo, mas com um líder do aliado mais antigo dos EUA, a República Francesa.
Histórias antagônicas
Trump tende a mostrar reverência especial por pessoas que demonstram grande poder, como Xi Jinping e o próprio Vladimir Putin. Mas com o francês, de 41 anos, parece ser diferente. O fato de ambos conversarem em inglês, ao contrário do que ocorre com outros líderes, pode explicar parte da química. Trump não se mostra contrariado com o europeu, como fez diversas vezes diante de Angela Merkel, que, assim como Macron, condenou a saída dos EUA do Tratado de Paris, defende o multilateralismo e se opõe a mudanças na Otan.
Ele também parecer ser grato por Macron ter dado um ar internacional à ação na Síria, embarcando, assim como o Reino Unido, no ataque após o suposto uso de armas químicas pelo regime de Bashar al-Assad.
Mas, Macron se distancia muito de Trump. Além de uma visão de mundo divergente, pessoalmente passaram por histórias antagônicas: ele é casado com Brigitte, 24 anos mais velha, enquanto o republicano, de 71, tem como terceira mulher Melania, que completará 48 anos amanhã.
As duas, por sua vez, devem protagonizar o lado mais glamouroso do encontro. O jantar de ontem foi planejado por Melania, que cuidou do evento para até 150 convidados — nenhum democrata ou jornalista entrou na lista. O menu contará com cordeiro ao estilo cajun, de Nova Orleans, que foi colônia francesa. Serão servidos vinhos franceses e americanos: tudo para reforçar a amizade dos dois países e seus líderes.

