WASHINGTON - A clara condenação que Donald Trump fez na segunda-feira a grupos racistas, neonazistas e de supremacia branca não foi o suficiente para reduzir a pressão que o presidente americano sente desde sábado, quando uma mulher foi morta num ataque racial em Charlottesville, no estado da Virgínia. Muitos políticos e ativistas dizem que ele foi lento — nos primeiros momentos culpou os “muitos lados” da violência e ficou em silêncio no Twitter — e pouco convincente. Segundo analistas, Trump foi obrigado pelas circunstâncias a adotar esta nova postura, que parece tratar-se apenas de “palavras vazias”, já que o presidente mantém pessoas associadas a nacionalistas brancos em seu Gabinete. Assim, a crise, que levou Trump ao ponto mais baixo de sua aprovação entre os americanos, deve continuar.
— É triste quando é notícia que o presidente dos Estados Unidos condena o racismo e a supremacia branca — afirmou, em coletiva, Vanita Gupta, presidente da The Leadership Conference on Civil and Human Rights, coligação que reúne mais de 200 grupos por direitos civis e humanos.
De fato, Trump estava sob forte pressão desde que, no sábado, apenas leu um documento sem ser taxativo contra os grupos racistas, que foram a Charlottesville para protestar contra a retirada de uma estátua de Robert Lee, defensor da escravatura na Guerra Civil. Na noite de sexta-feira, entoaram palavras de ódio com tochas e, no sábado, partiram para o enfrentamento com grupos de direitos civis, deixando dezenas de feridos e uma pessoa morta, após um atropelamento intencional. O ato está sendo chamado de “terrorismo branco” ou “terrorismo doméstico”. Diversos membros do governo e da família do presidente passaram o domingo tentando salvá-lo. A Casa Branca chegou a emitir comunicado condenando os grupos extremistas brancos, mas não foi o bastante.
— O racismo é o mal. E aqueles que causam violência em seu nome são criminosos e bandidos, incluindo a KKK, neonazistas, supremacistas brancos e outros grupos de ódio. São repugnantes a tudo que prezamos como americanos — disse Trump, em pronunciamento transmitido de Washington.
Na segunda-feira, milhares de manifestantes se reuniram na porta da Trump Tower, sua casa em Nova York, algo que não acontecia desde pouco depois da sua posse, em 20 de janeiro. Muitos dos que condenavam a falta de força e o posterior silêncio de Trump não ficaram satisfeitos com a forma como o novo posicionamento foi feito — primeiro, o presidente tratou da economia e da relação do país com a China. Também ajudaram a tirar a credibilidade da condenação os atos de Trump: pela manhã, no Twitter, o presidente criticara Kenneth Frazier, presidente da gigante farmacêutica Merck, que se desligou do conselho empresarial que assessora a Casa Branca. Negro, ele saiu alegando “questão de consciência”, após Trump não se posicionar fortemente contra os racistas. “Agora que Ken Frazier da Merck Pharma se demitiu do conselho empresarial presidencial, terá mais tempo para BAIXAR OS PREÇOS ABSURDOS DOS MEDICAMENTOS”, escreveu o presidente.
Tamika Mallory, copresidente da Marcha das Mulheres — que levou milhões a protestarem na posse de Trump — afirmou em entrevista à CNN que uma condenação forte é importante, mas não basta para enfrentar o racismo:
— Precisamos ouvir do presidente como o governo planeja abordar este sentimento geral de que não podemos viver num país onde a KKK pode atuar novamente.
Diversos grupos de ativistas pediram, nas redes sociais, que Trump retire do seu grupo de assessores pessoas ligadas aos movimentos brancos, como os assessores Steve Bannon e Sebastian Gorka, além do procurador-geral Jeff Sessions, que chamou o atropelamento da ativista Heather Heyer de terrorismo e abriu investigação sobre o caso. A União Americana de Liberdades Civis (Aclu, na sigla em inglês), disse que Trump mostra incoerência, pois, segundo fontes, seu governo planeja perdoar o ex-xerife do Arizona Joe Arpaio, condenado por racismo contra latinos. Diversos grupos de direitos humanos estão convocando protestos nos próximos dias. No sábado, a capital americana terá uma Marcha pelos Direitos Humanos.
Trump é acusado de incitar a divisão e o ódio. Na campanha, viu grupos nazistas oferecerem apoio à sua candidatura, o que foi rechaçado pelo republicano. Por isso, muitos em Charlottesville consideram o presidente parcialmente culpado pela retomada de eventos de ódio racial.
E, assim, a popularidade do presidente americano tem novas quedas. Segundo pesquisa do Gallup, entre 11 e 13 de agosto, apenas 34% dos americanos aprovavam seu trabalho, inferior aos 35% registrados em março e três pontos a menos que entre 9 e 11 de agosto. Para reverter esta situação, Trump precisará de mais do que palavras questionáveis.

