ROMA - Enquanto a crise migratória continua a fazer vítimas diariamente, mais dois grupos de ajuda humanitária suspenderam operações de resgate a quem se lança em embarcações clandestinas no Mediterrâneo, seguindo os passos da ONG Médicos Sem Fronteiras (MSF), que tomou a decisão sábado. Agora, a Save the Children e a Sea Eye anunciaram que também se veem forçadas a suspender a atividade, ameaçadas pela hostilidade das autoridades da Líbia.
Embarcações da Guarda Costeira líbia têm repetidamente se chocado com barcos de ONGs, às vezes chegando a fazer disparos de advertência contra os ativistas. As autoridades alegam que tais ações ocorreram para assegurar ao país o controle das operações de resgate no mar.
— Deixamos uma brecha letal no Mediterrâneo — advertiu Michael Busch Heuer, da ONG alemã Sea Eye, relatando ameaças explícitas do governo líbio.
A tensão no Mediterrâneo vem aumentando nas últimas semanas. Buscando fortalecer o papel das autoridades líbias no bloqueio à saída de imigrantes, o governo italiano recentemente sugeriu que algumas organizações facilitam o tráfico de pessoas. Além disso, neste mês, a Itália iniciou uma missão naval nas águas da Líbia para treinar e apoiar a Guarda Costeira, apesar da oposição de facções no Leste do país que rechaçam o governo reconhecido pela ONU, com sede em Trípoli.
Atualmente, os barcos das organizações humanitárias desempenham papel cada vez mais importante no Mediterrâneo: resgataram mais de um terço dos imigrantes salvos no mar até agora apenas este ano. Em 2014, eram responsáveis por apenas 1% dos resgates.
Estima-se que, atualmente, cerca de 330 mil imigrantes estejam na Líbia, segundo a Organização Internacional para as Imigrações, ligada à ONU. Na rota migratória para a Europa e sobrecarregado pela crise de refugiados, o país é palco de uma rotina de exploração para quem se arrisca na perigosa jornada. Os relatos são de condições altamente precárias, famílias separadas, abusos sexuais, sequestros e trabalhos forçados em campos de detenção contra quem já tentava fugir de uma dura realidade.
— A violência e a tortura são extremamente comuns — denunciou Gabriele Eminente, diretor da MSF na Itália, sobre a situação na Líbia.
Ele chamou o país de “porto inseguro”, num apelo a que imigrantes na Europa não sejam enviados de volta.

