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ONG revela evidências contra ex-presidente do Peru por mortes e tortura

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RIO e NOVA YORK — Após uma extensa investigação própria, a ONG Human Rights Watch (HRW) denuncia novas evidências que corroboram as acusações de longa data contra o ex-presidente do Peru Ollanta Humala por graves violações de direitos humanos. Um relatório divulgado hoje atribui responsabilidade direta ao ex-governante — atualmente preso preventivamente por lavagem de dinheiro e associação criminosa na rede de corrupção da empreiteira brasileira Odebrecht — por atrocidades nos anos 1990 e tentativas de encobrir provas mais tarde. Com diversos depoimentos, a organização pressiona autoridades a examinarem estas informações, num pedido de reparação histórica às vítimas dos conflitos armados internos que, de 1980 a 2000, tomaram o país.

Em maio deste ano, vários soldados reconheceram publicamente à televisão torturas, execuções extrajudiciais e desaparecimentos forçados de adultos e crianças durante operações militares contra guerrilhas de esquerda na década de 1990. Disseram que estavam seguindo ordens de Humala, que à época comandava a base militar de Madre Mía, no Norte do país, e usava o pseudônimo “Capitão Carlos”. Sua função era identificar e capturar os guerrilheiros dos grupos Sendero Luminoso e Movimento Revolucionário Tupac Amaru, considerados terroristas pelo governo.

25 ANOS À ESPERA DA JUSTIÇA

O ex-presidente negou as acusações de crimes contra a Humanidade, alegando que outros oficiais tinham o mesmo nome. No entanto, desde então, mais vítimas ou familiares identificaram Humala. Quatro meses depois, a HRW revela que entrevistou vítimas e testemunhas dos supostos abusos, além da procuradora encarregada das investigações, um ex-alto funcionário que trabalha para o Ministério da Defesa e um jornalista que já esteve com soldados envolvidos. Os depoimentos confirmaram relatos de abusos de uma investigação há muito conhecida pelos peruanos.

— Esta investigação já dura muitos anos e, em 2009, o caso foi fechado por falta de evidências, depois que algumas pessoas voltaram atrás nos seus depoimentos e disseram que não tinham certeza se Humala era responsável. Posteriormente, vazou na imprensa que pessoas próximas a ele mandaram que estas pessoas mudassem suas declarações. Agora, conseguimos evidências críveis para implicá-lo nestas atrocidades e tentativas de acobertar crimes — disse ao GLOBO Tamara Taraciuk, pesquisadora sênior da HRW.

Um dos soldados relatou, inclusive, um dos casos mais emblemáticos desta história: o desaparecimento de Natividad Ávila e seu marido, Benigno Sullca Castro, após terem sido presos na base militar de Madre Mía em 1992. Jorge Ávila, irmão de Natividad, denunciou que ele e os parentes foram confundidos com guerrilheiros e, por isso, detidos. Ávila escapou após cinco dias, mas sofreu torturas com descargas elétricas e afogamento simulado. Até hoje, nunca soube o paradeiro dos familiares.

— O essencial agora é o tempo. As vítimas esperam por justiça há 25 anos. Os procuradores precisam de total apoio do governo, com recursos para encontrar os corpos de desaparecidos. O maior obstáculo enfrentado pelos investigadores é a falta de cooperação do Ministério da Defesa — diz Tamara. — Os supostos abusos de Humala são parte de um padrão de abusos muito maior, e esperamos acelerar mais investigações. A falta de justiça é antiga na sociedade peruana. As pessoas têm direito de saber o que aconteceu e se o ex-presidente está envolvido.

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