WASHINGTON — O crescimento econômico desigual promoveu o primeiro aumento no número de sem-teto nos EUA em sete anos. De acordo com o Conselho Interagências dos Estados Unidos sobre os Desabrigados, 553.742 pessoas não tinham onde morar em janeiro deste ano — o equivalente às populações somadas de Niterói e Rio Bonito, no Estado do Rio. O relatório do conselho, divulgado em meados de dezembro, aponta para um crescimento de 1% em relação a igual período de 2016.
Os números mostram uma forte desigualdade regional: ao mesmo tempo em que houve queda no número de pessoas sem moradia em 30 estados e no Distrito de Colúmbia, onde fica a capital, Washington, o número mostra avanço da falta de abrigo para pessoas de 20 estados. Este crescimento foi maior nos lugares que apresentam um avanço econômico maior: Califórnia (alta de 13,7%), Nevada (5,9%), Oregon (5,4%), Nova York (3,6%) e Texas (1,8%).
— Os dados mostram que as comunidades com mercados imobiliários muito difíceis estão apresentando o aumento da falta de moradia. Não há suficiente oferta de habitação de aluguel nessas comunidades, o que aumenta os custos e a concorrência. Como país, temos de fazer mais para atender às necessidades habitacionais das pessoas em todos os níveis de renda, mas particularmente aquelas com renda mais baixa — disse ao GLOBO Matthew Doherty, diretor-executivo do Conselho Interagências sobre os Desabrigados.
Se por um lado a recuperação do valor dos imóveis é símbolo da força econômica dos EUA, por outro ela causa problemas em locais onde a massa salarial não avança no mesmo ritmo ou onde o aumento da riqueza se concentra no topo da sociedade. Só na cidade de Nova York são 76.501 sem-teto, seguida das regiões metropolitanas de Los Angeles (55.188), Seattle (11.643), San Diego (9.160), Washington (7.473), San Jose (7.394) e São Francisco (6.858). Todas estas regiões crescem em velocidade acima da média nacional. E, nelas, muitas vezes os afetados até têm atividade profissional.
— Trabalho por empreitada em obra, e o momento melhorou muito. Aqui em Washington, todo dia surge uma construção nova. Mas justamente nos locais onde há trabalho, o preço do aluguel é impossível de pagar — afirmou Jason, que pediu anonimato, argumentando que não queria que sua família, que vive na região de Detroit, soubesse de seu “problema temporário”.
Casos como estes alertam para o aumento da desigualdade e a falta de políticas públicas nos EUA:
— O governo federal fracassou em corrigir as decisões políticas ruins que levaram tantos moradores para as ruas e a uma desocupação contínua na habitação para os mais pobres — afirmou Jennifer Friedenbach, diretora-executiva da Coalition on Homelessness, entidade que atua em prol das pessoas desabrigadas. — O governo federal precisa levar o investimento habitacional de volta aos níveis anteriores (quando havia a redução dos sem-teto).
Bill Birdsall, professor da Escola de Serviço Social da Universidade de Michigan, é cético sobre as estatísticas dos sem-teto, por acreditar que os levantamentos não capturam, por exemplo, quem mora de favores em sofás de amigos. Mas vê no aumento da desigualdade e dos preços dos aluguéis uma tendência e uma face cruel da realidade americana:
— Muita gente pensa que só vira morador de rua quem tem problemas crônicos, como viciados em álcool. Ora, se um rico bebe todo dia, ele não vai para a rua, mas se um pobre bebe todo dia, ele pode virar um sem-teto. Isso mostra que a vulnerabilidade social é muito cruel e desigual — criticou.
Em 2017, aumentou o número de pessoas sem-teto e sem acesso a abrigos, um contingente que soma 192.875 indivíduos, contra 176.357 em janeiro de 2016. Do total, 369.081 são pessoas sem abrigo que vivem solitariamente, grupo que apresentou um crescimento de 4% em um ano, contra 184.661 que vivem em famílias (5% menos que em 2016). Os números mostram, ainda, que 40.056 moradores de rua são veteranos das Forças Armadas dos EUA, alta de 2% sobre o ano anterior. Mas o maior aumento foi registrado no grupo de casos crônicos — que subiram 12% em 12 meses, para 86.962.
Este é o caso de James Hutson, de 62 anos, que vive numa barraca numa grande avenida de Washington. Misturando elementos bíblicos, acusações de assassinatos a políticos e críticas a celebridades, ele disse que está em Washington para falar com o presidente Donald Trump.
— Desde 1994, quando tive uma revelação de Jesus, não falo com meu irmão ou minha irmã. Meus pais já morreram — contou, não se importando com o frio de 2° C numa noite de dezembro em Washington. — Antes de vir para cá, fiquei um ano, exceto uma noite, dormindo ao relento na minha cidade (Cleveland, Ohio). Isso não me assusta.
Hoje, James, vive de doações e de sua arte.
— Compre meu quadro. Só US$ 99. Quando eu for famoso, vai valer no mínimo dez vezes mais.

