RIO - Filmes de tribunais se apoiam na tensão entre os argumentos - e a retórica - dos dois lados de uma disputa. Sua graça está justamente em opor ideias, sugerindo ao espectador uma dúvida sobre quem detém a razão.
Mas o que sobressai em “Negação” é o fato de sua trama ser um filme de tribunal sobre o maior crime de todos, contra o qual parece não haver argumento razoável para justificar um embate. Ele põe em julgamento o Holocausto. E encontra um personagem com disposição a negá-lo.
Coproduzido pela BBC, com estreia no Brasil marcada para 9 de março, “Negação” se baseia no livro da historiadora americana Deborah Lipstadt, em que ela narra seu confronto com o inglês David Irving, um historiador famoso por negar o Holocausto. Deborah é interpretada por Rachel Weisz; e Irving, por Timothy Spall. No elenco destacam-se ainda Tom Wilkinson e Andrew Scott, como os advogados que defenderam a historiadora na ação de calúnia movida por Irving em 1996.
Pela temática, é curioso que “Negação” siga um formato clássico de filme de tribunal. Há até uma viagem ao campo de concentração de Auschwitz, na qual discutem-se evidências que comprovem ou desmintam o assassinato de milhões de judeus por ordem nazista. É possível imaginar algo do tipo em 1996? E é possível aceitar que ainda hoje existam figuras como Irving?
O roteirista de “Negação” é David Hare, dramaturgo e cineasta inglês, mais conhecido por ter sido indicado ao Oscar pelos roteiros de “As horas” (2002) e “O leitor” (2008) - este último, aliás, também uma história em que os personagens olham para o passado para lidar com o trauma do Holocausto. Seu diretor também é uma figura conhecida, mas por produções mais comerciais, como “O guarda-costas” (1992, aquele mesmo com Whitney Houston e Kevin Costner) e “Volcano: A fúria” (1997).
Num texto que escreveu para o jornal “The Guardian”, em setembro, Hare citou uma frase dita por Deborah Lipstadt no filme, uma que resume bem o absurdo da situação passada pela historiadora: "Certas coisas são verdades. Elvis está morto. As calotas glaciais estão derretendo. E o Holocausto aconteceu."

