BARCELONA — Escutar os berros de “cerveza, beer”, nas ruas de Barcelona, é um clássico. Mas é no Raval, bairro central entre o Gótico e o Poble Sec, que a frase repetida incansavelmente pelos vendedores ambulantes vira hino ou um refrão que gruda na mente. Com a proibição da venda de bebida alcoólica depois das 23h e a ameaça de multa para quem for pego bebendo álcool na rua, a alternativa é comprar latinhas de cerveja dos ambulantes por um euro. Pequenas e fáceis de esconder dos guardas, elas chegam pelas mãos de paquistaneses que dominam o nicho de mercado em Barcelona.
No pátio do Macba (Museu de Arte Contemporânea), tradicional reduto de skatistas de todas as partes do mundo, há uma miscelânea cultural, com grupos de negros, brancos, latinos, asiáticos e paquistaneses. Alguns estão tão familiarizados com os jovens que pausam o trabalho para jogar conversa fora por alguns minutos.
— Compro duas cervejas todo dia, uma de um vendedor e outra de outro, toda vez que venho aqui. Ficamos conversando, até aula de skate já dei a um deles — conta o uruguaio Santiago Fernandez, de 22 anos.
Além de cerveja, os muçulmanos que vivem e trabalham em Barcelona também dominam o setor de mercadinhos, aqueles que ficam abertos até tarde para quem tem fome durante a madrugada. Os mercadinhos de bairro são a conquista natural de muçulmanos que, em geral, chegam à Espanha antes mesmo dos 20 anos de idade e trabalham vendendo ilegalmente nas ruas até conseguir comprar um negócio próprio.
A convivência entre catalães, turistas e muçulmanos, que até então não eram vistos como um perigo, sempre foi tranquila. Mas o cenário pacífico pode ter mudado depois dos atentados da última quinta-feira. Esse é o temor de Husmann Shomma, paquistanês de 39 anos que mora e trabalha no bairro do Raval há 18.
— Hoje vi uma menina com um cigarro e um isqueiro nas mãos e, quando fui pedir o isqueiro emprestado, ela disse que não tinha e saiu apressada. Foi um gesto rápido que me matou porque nunca tinha acontecido coisa parecida antes — lamentou.
Os ataques terroristas em Barcelona, com centenas de atropelados e 13 mortos até o momento, e em Tarragona, onde um grande número de explosivos foi encontrado em um novo e poderoso plano de ataque que seria consumado na capital catalã, colocam à prova a pacífica relação entre espanhóis e muçulmanos cidadãos da Catalunha.
— Temos medo que o pessoal comece a nos julgar como se fôssemos todos iguais. Os suicidas estão sujando o nome do Islã. O Islã não diz para matar, isso não existe — diz Omar Nisbah, de 36 anos, frequentador da mesquita Tariq Bin Ziyad, que fica a poucos quarteirões do Macba, bem perto da Rambla.
Omar correu com a mulher, Tahira Osmani, em direção à Rambla momentos após o ataque. Ele conta que os dois levaram água aos feridos e participaram do resgate das vítimas:
— Ajudamos o máximo que pudemos, havia muitas crianças e muitas mulheres feridas, inclusive uma senhora muçulmana que não pude mover porque tinha uma fratura exposta na perna.
Noorullah Essakhel, de 32 anos, vive há mais de uma década no Raval. Há alguns meses, ele trabalha como promotor do restaurante “Rey de Istambul”, em uma esquina em frente ao local onde a van que atropelou centenas de pessoas, enfim, parou. O dono desse estabelecimento é também proprietário do restaurante “Luna de Istambul”, onde alguns chegaram a afirmar que os terroristas teriam se refugiado após abandonarem o veículo. O boato envolvendo o restaurante turco corria rápido no dia do ataque e pouco se fez para desmenti-lo, quando ficou confirmado que não era verdade.
— A van estava largada desgovernada, ninguém viu o motorista fugir porque naquele momento estavam todos em guerra. Uns fugindo, outros se protegendo, filmando ou ajudando. Quais são os interesses de quem cria um boato como esse? — questiona Essakhel.
Nascido no Afeganistão, ele diz não temer uma revolta da população contra os muçulmanos:
— Meu país está em guerra há mais de 45 anos. O que aconteceu na quinta-feira acontece todos os dias onde nasci. Essa tragédia me dá pena, sobretudo em circunstâncias tão estranhas.
Durante o minuto de silêncio que aconteceu na sexta-feira, boa parte dos presentes eram da comunidade muçulmana da Catalunha, região que concentra 214 mesquitas de um total de mil em toda a Espanha.
— Nós somos a segunda vítima, depois das vítimas diretas. O turismo vai se recuperar, o país também, mas nós vamos viver cada dia com mais vergonha. Um amigo, que antes me cumprimentava, hoje vira a cara porque tem medo que eu seja um terrorista — lamenta o iraquiano Moussak Ahjmed.
— Barcelona é a nossa casa — repetiam os amigos que acompanhavam Ahjmed. — Somos 1,3 bilhão de muçulmanos do mundo, se todos nós fossemos terroristas, este mundo já não existiria — continuaram.
NA sexta-feira, dia seguinte ao ataque à Rambla, turistas e catalães prestavam homenagens às vítimas quando se depararam com uma manifestação autoproclamada de direita, que subia a rua em sentido contrário. As cerca de 20 pessoas, que gritavam palavras de ordem contra turistas e muçulmanos, repetiam que “a Espanha é cristã e não muçulmana”. Turistas revoltados com o grupo de extrema direita chamaram a polícia, que paralisou a marcha.
A comunidade muçulmana, por sua vez, se reuniu ontem, na Rambla do Raval, em um ato de apoio aos familiares das vítimas e aos feridos no ataque terrorista.
— Seguimos trabalhando com a ajuda de toda a sociedade espanhola e catalã. Um ataque terrorista é um ataque contra a humanidade, não é só contra um país. O corão diz que matar uma pessoa é matar toda a humanidade — afirmou o agente comunitário de saúde Tahir Rafi, um dos organizadores da marcha.

