BUENOS AIRES — Há alguns meses, em meio à implementação de duras medidas de ajuste — principalmente o aumento de tarifas de serviços públicos —, pairavam sobre a Casa Rosada especulações sobre dificuldades que o presidente Mauricio Macri poderia enfrentar para terminar seu mandato. O primeiro ano e meio de gestão não foi fácil, e a lua-de-mel acabou em menos de seis meses.
As incertezas eram muitas e, em consequência, o temor (sobretudo de investidores locais e estrangeiros) de um retorno do kirchnerismo estava latente. Há uma semana, para surpresa da grande maioria dos analistas, o chefe de Estado conseguiu, através das urnas, afastar medos e consolidar seu partido, Mudemos, como a força política mais importante da Argentina.
E mais. Macri, empossado em dezembro de 2015, passou de ser considerado um presidente fraco a ter, de acordo com jornalistas, colunistas políticos e analistas, chances de buscar sua reeleição em 2019.
Como se explica a volta por cima dada pelo presidente argentino? Em poucas palavras, ao contrário do que muitos imaginaram, nas Primárias Abertas Simultâneas e Obrigatórias (Paso) do domingo passado predominou o voto pela esperança, e não pelo castigo.
As Paso foram um ensaio para as legislativas de 22 de outubro, e um dos grandes destaques da eleição foi a candidatura a senadora da ex-presidente Cristina Kirchner. Apesar do constante ataque dela "ao ajuste de Macri", os candidatos do Mudemos, juntos, conquistaram quase 37% dos votos em todo o país — ampliando em cerca de três pontos percentuais a votação dele no primeiro turno presidencial, em 2015. O kirchnerismo, em contrapartida, teve 20%.
— O Mudemos cresceu, num contexto econômico muito desfavorável. Para muitos, Macri representa uma proposta de futuro atraente — disse o analista Julio Burdman, do Observatório Eleitoral e professor da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA).
Pesquisas recentes do observatório mostraram que 51% dos argentinos acham que sua situação econômica e social piorou no último ano. A inflação continua alta; a economia, em lentíssima recuperação; e muitas empresas foram obrigadas a demitir trabalhadores.
Mas tudo isso, comunicado com ênfase por Cristina e os candidatos de sua Unidade Cidadã durante toda a campanha, não foi suficiente para abalar o macrismo. Burdman vê "uma identificação crescente de muitos setores com o governo":
— É um partido menos ideológico, que atrai por seu estilo e gera expectativa.
Esperança é a palavra chave para entender o atual cenário político argentino. Macri ainda não mostrou grandes resultados, a economia não decolou, a chuva de investimentos estrangeiros não chegou, e a pobreza até aumentou. Mas muitos argentinos, como Hugo Cesar Valdez, taxista que dedica grande parte de seu tempo a ajudar pessoas humildes do município de La Matanza (Grande Buenos Aires), acreditam que o governo vai, aos poucos, conseguir melhorar as condições de vida da população.
— Nosso voto buscou dar uma nova oportunidade a Macri. No governo anterior, organizações sociais como a minha eram muito pressionadas, nos exigiam apoiar o governo para receber ajuda e isso já mudou. Hoje é diferente — comentou.
Ele, junto a vizinhos de La Matanza, distribui doações de roupas, brinquedos, móveis e alimentos em bairros extremamente pobres da região.
— Algumas coisas já estão melhores. Tem menos droga circulando, mais segurança e algumas ruas foram asfaltadas — disse Hugo, que fez especiais elogios à governadora macrista da província, a jovem Maria Eugenia Vidal.
Em 17 das 24 províncias argentinas, o Mudemos superou 30% dos votos. Pela primeira vez, desde 1946 (quando nasceu o peronismo), a Argentina tem uma nova legenda nacional que não seja o Partido Justicialista (PJ) e a União Cívica Radical (UCR).
— O mais importante que vemos hoje é uma tendência eleitoral forte e a construção partidária do Mudemos, que tem sido muito eficiente - apontou Marcelo Leiras, diretor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade San Andrés. — A deterioração econômica não era tão grande como pensávamos, e algumas coisas já tiveram impacto positivo, como o combate ao tráfico e a redução da violência nas favelas.
Cristina, apontou o professor, "apostou no voto de desânimo, mas não convenceu nem mesmo a muitos peronistas". Já Macri "não obteve um triunfo esmagador, mas sim um aval".
Na opinião de Diego Reynoso, cientista político e pesquisador do Conselho Nacional de Pesquisas Científicas e Técnicas (Conicet), "este resultado ratifica o projeto político de Macri". Com um peronismo dividido e sem uma liderança clara, apontou Reynoso, "as chances de Macri para 2019 são boas".
— Em 2015, muitos dos votos por Macri foram anti-Kirchner. Nas Paso, foram, claramente, votos de confiança ao macrismo.

