RIO – Malta está fechando seus portos a navios de resgate humanitário operados por organizações não governamentais no Mediterrâneo, mantendo ao menos duas embarcações presas sem justificativa legal na capital La Valeta.
O medo de que isso aconteça também com seu navio “Aquarius” - e o fato de ele agora estar sem bandeira após decisão de autoridades panamenhas de retirarem seu registro – levou as ONGs SOS Mediterranée e Médicos Sem Fronteiras (MSF) a decidirem fazer em águas internacionais o transbordo para barcos menores de 58 refugiados salvos para que pudessem desembarcar no pequeno país insular entre a Líbia e a Itália. Os migrantes salvos depois serão distribuídos entre Alemanha, Portugal, França e Espanha.
La Valeta foi por anos o porto de base de uma série de navios humanitários que operavam junto à costa da Líbia. Posição que ganhou ainda mais importância depois que o novo ministro do Interior italiano, Matteo Salvini, de extrema direita, decidiu fechar os portos às embarcações de resgate, sobretudo das ONGs, às quais acusa de favorecer o tráfico de pessoas.
Desde junho, no entanto, o “Sea-Watch 3”, da ONG Sea-Watch, está impedido de levantar âncora do porto de La Valeta, enquanto o “Moonbird”, um pequeno avião de reconhecimento comprado pela organização para detectar embarcações em dificuldades, não pode deixar o aeroporto local.
- Me decepciona o comportamento das autoridades (maltesas), que não nos dão nenhuma base legal (para a retenção dos equipamentos) – denunciou o chefe da missão da Sea Watch na região, Tamino Böhm, à agência de notícias AFP.
O outro navio de resgate humanitário preso no porto de La Valeta é o “Lifeline”, da ONG de mesmo nome, também por supostos problemas de registro. Uma audiência sobre sua situação ante um tribunal maltês está prevista para esta terça-feira.
As dificuldades para operação na região e a queda no fluxo de migrantes também levaram algumas organizações, como a MSF e a Save The Children, a suspenderem ou reduzirem sua atuação na área.
A maltesa Moas, por exemplo, primeira a enviar um barco para a costa líbias em 2014, desviou suas operações para Bangladesh, para resgatar integrantes da etnia rohingya perseguidos em Mianmar. Já os espanhóis da Proactiva Open Arms navegam agora na costa de seu país, que passou a registrar mais chegadas de migrantes que a Itália.
Assim, apesar da queda no fluxo de migrantes que tentam atravessar o Mediterrâneo rumo à Europa, o número de mortos continua alto. Relatório divulgado nesta sexta-feira pela Organização das Nações Unidas (ONU) aponta que, desde o começo do ano até 26 de setembro, 1.733 pessoas morreram ao fazerem a viagem.
- Todos os civis estão sendo expulsos da zona de buscas e resgates, já não podemos testemunhar mais nada, não sabemos de nada – protesta Böhm, da Sea Watch.
Ainda nesta sexta-feira, a
El viernes, a SOS Mediterranée, que freta o “Aquarius” junto com a MSF, convocou uma manifestação para o dia 6 de outubro para exigir que os países europeus permitam ao barco retomar sua operação após a perda da bandeira panamenha.

