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Israel assume autoria 'não intencional' de ataque contra ONG de distribuição de comida em Gaza

Por Folha de São Paulo

02/04/2024 20h30 — em
Mundo



SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - Um ataque aéreo de Israel no centro da Faixa de Gaza na segunda-feira (1º) matou sete pessoas que trabalhavam na WCK (World Central Kitchen), ONG do chef espanhol José Andrés, afirmou a organização nesta terça-feira (2). O comboio foi atingido quando saía de um armazém em Deir al-Balah, onde descarregou mais de 100 toneladas de alimentos que entraram no território palestino pelo mar.

Além de palestinos, há entre as vítimas pessoas da Polônia, do Reino Unido e da Austrália, além de um cidadão com nacionalidade dos Estados Unidos e do Canadá. Eles viajavam em três veículos, dois deles blindados e com o logotipo da WCK, e haviam coordenado o deslocamento com o Exército de Israel, disse a organização em um comunicado. As identidades de seis deles foram reveladas: a australiana Lalzawmi Frankcom, 44, o polonês Damian Sobol, 35, o palestino Saif Issam Abu Taha, 27, e os britânicos John Chapman, James Henderson e James Kirby —estes, identificados pela BBC.

Um vídeo mostra os danos que um projétil israelense deixou em um dos carros, logo ao lado do símbolo da ONG estampado na lataria. "Este não é apenas um ataque contra a WCK; é um ataque às organizações humanitárias que atuam nos locais mais terríveis em que os alimentos são usados como arma de guerra", disse Erin Gore, chefe-executiva da entidade. "Isso é imperdoável."

Ao lamentar as mortes, o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu a princípio afirmou que "isso acontece em tempos de guerra". "Estamos investigando minuciosamente o assunto, estamos em contato com os governos [dos países das vítimas estrangeiras] e faremos de tudo para garantir que isso não aconteça novamente", disse ele em um pronunciamento.

Mais tarde nesta terça, porém, as forças de segurança do país admitiram ter cometido "um grave erro" ao atingir o comboio, segundo elas "provocado por uma identificação equivocada durante a noite, em meio a uma guerra, em condições muito complexas".

"Isso não deveria ter acontecido", declarou o chefe do Estado-Maior do Exército, o general Herzi Halevi. Antes, militares haviam afirmado ao jornal Haaretz que o ataque fora resultado da indisciplina de parte dos comandantes da operação terrestre em Gaza.

O presidente de Israel, Isaac Herzog, foi outro que pediu desculpas pelo episódio, mas em conversa com o chef José Andrés. Comunicado de seu gabinete afirma que ele "expressou sua profunda tristeza" e "enviou suas condolências às famílias e amigos" das vítimas no diálogo.

No sistema político israelense, Herzog exerce um papel meramente cerimonial. Como ele não faz parte do gabinete de guerra, não tem controle algum sobre decisões militares, que passam por Netanyahu.

Após o ataque, a WCK informou que pausaria suas operações na região imediatamente. De acordo com autoridades do Chipre, de onde a ajuda humanitária partiu em direção ao território palestino, embarcações com as 240 toneladas restantes de recursos que ainda seriam desembarcadas deram meia volta.

No mês passado, a organização disse que havia servido mais de 42 milhões de refeições em Gaza ao longo de 175 dias.

Desde 2010, quando Andrés enviou cozinheiros e alimentos para o Haiti após um terremoto e iniciou as operações da organização, a WCK entrega alimentos para afetados por desastres naturais, refugiados na fronteira dos Estados Unidos, trabalhadores de saúde durante a pandemia de Covid-19 e pessoas em situações de conflito na Ucrânia e em Gaza.

O chef afirmou que estava com o coração partido e de luto pelas famílias e amigos dos que morreram. "O governo israelense precisa parar com essa matança indiscriminada", disse. "É preciso parar de restringir a ajuda humanitária, parar de matar civis e trabalhadores humanitários e parar de usar os alimentos como arma. Nenhuma outra vida inocente pode ser perdida. A paz começa com a nossa humanidade partilhada. Precisa começar agora".

O presidente dos EUA, Joe Biden, também falou por telefone com Andrés para prestar suas condolências, e a Casa Branca disse estar "indignada" com o ataque, apesar de fazer a ressalva de que não há evidências que comprovem que Israel atingiu o comboio intencionalmente.

"Essas pessoas são heróis", disse o chefe da diplomacia dos EUA, Antony Blinken, em referência aos funcionários da ONG. "Não deveríamos ter uma situação em que quem que está só tentando ajudar os outros enfrente riscos tão grandes."

Segundo o porta-voz do Conselho de Segurança Nacional, John Kirby, o governo americano espera que Israel faça uma investigação ampla e transparente sobre o ocorrido, e responsabilize os culpados. Ele ainda descreveu as imagens do ataque como "devastadoras". Mais cedo, outra porta-voz do Conselho havia dito que os EUA estavam "com o coração partido e profundamente preocupados" com o contexto em que se deu o ataque.

O Exército israelense disse estar fazendo revisões para compreender as circunstâncias do que chamou de "incidente trágico". Segundo eles, um órgão independente investigará as mortes. "As Forças de Defesa fazem grandes esforços para permitir a entrega segura de ajuda humanitária e têm trabalhado em estreita colaboração com a WCK nos seus esforços vitais para fornecer alimentos e ajuda humanitária ao povo de Gaza", disseram os militares.

Israel nega que esteja dificultando a distribuição de ajuda alimentar em Gaza, onde a fome se alastra devido aos bloqueios impostos pelas operações militares. Tel Aviv alega que o problema é causado pela suposta incapacidade logística dos grupos de ajuda internacional.

Essas entidades, por sua vez, dizem que as autoridades israelenses impõem obstáculos burocráticos e não garantem a segurança do transporte da ajuda. Ao menos 174 funcionários da ONU, 348 profissionais de saúde e 48 membros da defesa civil foram mortos no conflito, segundo o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários.

O Hamas, que controla Gaza desde 2007, emitiu um comunicado dizendo que o bombardeio tenta aterrorizar os funcionários de agências internacionais, dissuadindo-os de suas missões.

Líderes dos países de origem das vítimas também se pronunciaram. O primeiro-ministro australiano, Anthony Albanese, disse que o seu governo entrou em contato com Israel.

"Essa é uma tragédia que nunca deveria ter ocorrido, que é completamente inaceitável, e a Austrália procurará uma responsabilização plena e adequada", disse em uma entrevista coletiva nesta terça. Albanese afirmou que civis inocentes e trabalhadores humanitários precisam ser protegidos e reiterou o apelo a um cessar-fogo em Gaza.

O primeiro-ministro do Reino Unido, Rishi Sunak, declarou que estava "chocado e entristecido", que a WCK fazendo um "serviço fantástico" para aliviar o sofrimento em Gaza e que é responsabilidade de Tel Aviv garantir que a ONG possa atuar no território palestino em segurança. "Estamos pedindo a Israel para investigar o que aconteceu com urgência, porque claramente há perguntas que precisam ser respondidas."

O Reino Unido também convocou o embaixador de Israel em Londres para explicações sobre a morte dos trabalhadores da ONG —na praxe diplomática, um gesto de profundo descontentamento do Estado anfitrião.

O Canadá condenou o ataque israelense e pediu uma investigação completa. "Esperamos responsabilização completa por esses assassinatos e vamos levar essa demanda diretamente ao governo israelense", afirmou a chanceler Mélanie Joly, acrescentando que ficou horrorizada com os relatos do ataque.

Por meio da rede social X, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, também disse estar "horrorizado" com a morte dos trabalhadores.

"Espero e exijo que o governo israelense esclareça o mais rápido possível as circunstâncias desse ataque brutal que tirou a vida de sete trabalhadores humanitários que não estavam fazendo nada além de ajudar", afirmou posteriormente. "É urgente que Israel permita o acesso à ajuda humanitária em Gaza, conforme exigido por vários órgãos internacionais, incluindo a Corte Internacional de Justiça."

O prefeito de Przemysl, na Polônia, cidade de uma das vítimas do ataque, também se manifestou. "Não há palavras para descrever o que as pessoas que conheciam esse homem fantástico sentem neste momento. Que ele descanse em paz", afirmou Wojciech Bakun em sua conta no Facebook.

O chanceler do país, Radoslaw Sikorski, disse ter pedido a seu homólogo israelense "explicações urgentes". "Ele me assegurou que a Polônia em breve receberá os resultados da investigação sobre essa tragédia. Minhas condolências à família do nosso corajoso voluntário e à de todas as vítimas civis na Faixa de Gaza", afirmou ele no X.


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