BERLIM - Assim como no Irã, onde uma geração conectada com o mundo não está mais disposta a aceitar um regime que põe na cadeia mulheres porque elas se recusam a usar o chador preto, os iranianos na diáspora acompanham os acontecimentos na sua pátria com enorme interesse. O presidente Hassan Rouhani, “pai” do histórico acordo nuclear de 2015, é, para Bijan Jafari, da comunidade iraniana na Alemanha, a esperança de um progresso democrático cauteloso.
— Se Rouhani perder, a situação no Irã pode ficar explosiva — prevê Jafari.
Caso seja reeleito, o presidente planeja continuar lutando pela abertura ao Ocidente. Mas em seu caminho está a poderosa Guarda Revolucionária, lembra o economista e cientista político Mehran Barati, em Berlim desde os anos de 1970. Barati, que evitou nas últimas décadas visitar seu país, onde foi condenado, diz que a impaciência da população, sobretudo dos jovens, é ainda hoje maior do que era em 2009 — quando milhões foram às ruas protestar contra o regime:
— Esses jovens vão com certeza se rebelar um dia contra o regime islâmico. São dois mundos que ficam cada vez mais distantes com a globalização da juventude iraniana — afirma Barati. — Se a Guarda Revolucionária e o líder supremo não aceitarem entregar o poder pacificamente, então haverá um banho de sangue.
Mas nem todos estão satisfeitos com Rouhani. Em Berlim para uma conferência sobre a situação da mulher no Irã, promovida pela ONG Terres des Femmes, Mina Ahadi afirmou que o presidente também é, na verdade, “um homem do regime”.
— Rouhani também aceitou as oito mil execuções de pessoas condenadas por delitos como tráfico de drogas ou por motivos políticos — diz Ahadi, que vive em Colônia e preside o Conselho dos Ex-Muçulmanos na Alemanha.
Segundo ela, as mulheres iranianas já deram início a uma revolução silenciosa contra o regime do aiatolá Khamenei. Nas famílias, há um debate veemente sobre leis que até agora implicavam em pena de morte, como a relação extraconjugal de uma mulher casada ou a que proíbe sexo antes do casamento.
— As iranianas toleram cada vez menos a intromissão do regime nas suas vidas privadas.
Ainda assim, o “delito” de trocar o chador preto por um lenço de seda colorido, como um acessório — deixando o cabelo em parte descoberto — é a causa da prisão de cerca de mil mulheres todos os anos.
Ahadi acaba de divulgar na internet um manifesto apelando aos seus compatriotas para que boicotem as eleições.
— Não adianta eleger um presidente que na verdade faz parte do sistema. A única solução para o Irã é o fim do regime dos aiatolás.
Os dissidentes moderados lembram, porém, que a situação atual é complexa. O Irã, que disputa com a Arabia Saudita a hegemonia na região, correria, na visão de alguns deles, o risco de ser alvo de um ataque americano.
— A maior preocupação no Irã é o medo de guerra e do desemprego — conclui Barati.

