TEERÃ - Os iranianos vão às urnas na sexta-feira divididos entre o atual presidente, o moderado e favorito Hassan Rouhani, e seu principal rival linha-dura, Ebrahim Raisi — próximo ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Mas, apesar da enorme diferença entre os dois candidatos, a economia parece ser o assunto que mais preocupa grande parte dos eleitores.
Clérigo xiita, Raisi prometeu doações aos pobres — sem dizer como isso seria financiado — o que acabou atraindo uma parcela dos indecisos.
— Esta eleição é sobre a economia. Acho que a maioria dos eleitores não está pensando sobre a alma do país agora — afirma Cliff Kupchan, presidente do Grupo Eurasia. — Os números estão melhorando, mas os eleitores não estão sentindo isso.
Para os mais jovens, que querem mais democracia e liberdades sociais, Rouhani é a única escolha possível. Mesmo assim, não há entusiasmo após quatro anos de um mandato que não conseguiu implantar suas principais promessas de campanha.
— Tinha 18 anos quando votei em Rouhani há quatro anos. Era jovem e inexperiente — diz o estudante Rastegari, que não quis dar o sobrenome. — Agora, não temos liberdade e nem emprego. Mesmo assim, não temos escolha.
Mas, para eleitores mais velhos, as prioridades são completamente diferentes:
— Meus filhos não podem comer liberdade — rebate o funcionário municipal na cidade de Rasht. — Preciso pagar o aluguel, tenho que colocar pão na mesa da minha família, e vou votar em Raisi.
O taxista Ali Mousavi também é um dos milhões de iranianos que se preocupam com a queda da economia, apesar do histórico acordo nuclear com potências mundiais, conquistada por Rouhani, que levantou as sanções contra o país. Desde então, a inflação caiu para um dígito, mas o desemprego ainda está subindo.
— Não estou interessado em política, vou votar no candidato que prometeu mais dinheiro — diz Mousavi, que tem três filhos e mora em Teerã.
Há ainda os desiludidos pela incapacidade de Rouhani de implantar mudanças sociais. Ele venceu em 2013, apoiado pelos iranianos que pediam menos repressão. Mas grupos de direitos humanos dizem que houve pouco ou nenhum movimento para promover maior liberdade política e cultural desde então, já que os defensores da linha-dura dominam o Judiciário e os serviços de segurança.
— Não vou votar mais. Nós sempre temos que escolher entre o ruim e o menos pior no Irã. Rouhani não conseguiu trazer mudanças — afirma Kourosh Sedgi, estudante de 25 anos de Isfahã.
A saída de outros candidatos conservadores transformou a eleição numa disputa inesperadamente apertada entre Rouhani, 68 anos, e Raisi, de 56 anos. Raisi é apoiado pelo aiatolá Ali Khamenei, a autoridade máxima do país. Estudioso muçulmano, ele ainda é o mantenedor da Astan Quds Razavi, fundação de caridade mais rica do mundo islâmico e organização responsável pelo santuário mais sagrado do Irã, o Imã Reza. Seu turbante preto indica que ele é um seyed — descendente do profeta Maomé, no Islã xiita.
Mas, apesar do forte apelo religioso, analistas acreditam que se jovens e mulheres forem às urnas, Rouhani tem grande chances de se eleger. Sua campanha foi impulsionada na reta final pelo apoio de influentes figuras políticas e culturais, na tentativa de mobilizar parte deste eleitorado a ir às urnas. A poucos dias do pleito, o presidente recebeu o endosso do ex-presidente e líder reformista Mohammad Khatami e de Mehdi Karroubi, do Movimento Verde — além de uma forte mensagem positiva do líder verde, Mir Hossein Mousavi, preso desde os protestos de 2009.
— Rouhani habilmente percebeu que venceria se os jovens iranianos repetissem o que aconteceu em 2013 numa escala maior, ou seja, projetando seus desejos num candidato que não é reformista, mas abraça a retórica reformista — explica Behnam Ben Taleblu, analista sobre o Irã na Fundação para a Defesa das Democracias.
O analista Saeed Leylaz acredita numa taxa de participação recorde:
— Rouhani está muito à frente de Raisi. Temendo a pressão por parte de linha-dura, caso Raisi seja eleito, os iranianos se mobilizaram para votar.

