Início Mundo Invisibilidade vira arma de imigrantes ilegais contra deportação nos EUA
Mundo

Invisibilidade vira arma de imigrantes ilegais contra deportação nos EUA

Envie
Envie

WASHINGTON — Cloves da Cunha acompanha com cuidado as declarações e os tuítes de Donald Trump: cada opinião dele mexe diretamente com seu negócio, uma loja de carros usados em Baltimore, Maryland. Com 60% de seu público formado por imigrantes ilegais, o medo que o republicano tem causado na comunidade latina em sua cruzada contra os estrangeiros irregulares fez suas vendas caírem pela metade desde que o magnata chegou à Casa Branca. O motivo? Muitos agora estão mais preocupados em guardar dinheiro para a "poupança-deportação", ou seja, ter dinheiro vivo para contratar advogados e para tentar um recomeço em seus países de origem, se forem de fato expulsos dos Estados Unidos. O impacto não é sentido apenas na economia. Igrejas e outros locais frequentados por imigrantes viram seu público cair. Até dos consultórios médicos eles sumiram, na tentativa de não chamarem a atenção e evitarem uma possível deportação.

- Esta semana, quando Trump falou que poderia propor uma reforma migratória que permitiria a legalização de milhões, já houve uma melhora no clima, alguns vieram ver preços… mas há muito receio, o temor está muito grande - afirmou o brasileiro, que há anos é sócio da Auto Point.

Isso se reflete em quase todos os negócios latinos no país. Mesmo quem vive nas chamadas "cidades-santuários", que se opõem aos projetos de Trump que podem levar a uma deportação em massa, sofrem com este problema. O medo leva os 11 milhões de ilegais e seus parentes a se isolarem cada vez mais dentro do país. A ordem é: ser discreto, não entrar em confusão e se precaver.

- Coisas simples estão sendo cortadas. Minha manicure disse que o negócio dela caiu como nunca - afirmou Liliane Costa, diretora do Brazilian American Center (Brace) em Framingham, Massachusetts, um dos principais polos da comunidade de brasileiros nos EUA.

- Estamos tentando ajudar os brasileiros aqui a se precaverem, mas não se precipitarem - disse.

Liliane afirma que muitos imigrantes estão em pânico. O medo da prisão e, principalmente, da situação de filhos nascidos nos EUA - muitos adiavam o pedido da cidadania brasileira deles - fez a procura do centro crescer como nunca. Sem isso, como são americanos, podem ficar anos longe dos pais, se estes forem deportados.

- Antes recebíamos de 10 a 15 pessoas por dia aqui, na Brace. Agora está entre 60, 70. Tínhamos uma parceria com o consulado que quinzenalmente vinha aqui nos auxiliar. Agora eles estão aqui semanalmente - contou.

TEMOR DE RECORRER À POLÍCIA

Mas a maior preocupação para ela é com o lado emocional. Professoras dizem que os filhos de brasileiros estão mais agressivos e menos concentrados, o que pode ser um reflexo da tensão em casa. A Secretaria de Educação local fará uma reunião com a comunidade brasileira para tentar acalmá-la.

- Meu maior temor é que aumentem os casos de violência contra imigrantes neste momento do crescimento do discurso de ódio, justo agora que os sem papéis estão mais temerosos que nunca de chamar a polícia - disse.

E nem a fé pode ajudar. Com medo de serem encontrados em locais com concentração de latinos, muitos sequer vão às igrejas. Templos que tinham missas ou cultos em espanhol estão com menos fiéis, como na Quarta-Feira de Cinzas na Igreja Nossa Senhora das Américas, em Washington.

- Conheço muita gente que deixou de frequentar a igreja pois teme que a polícia venha até aqui. Ficam em casa, cada vez mais sozinhos - relatou a equatoriana Maria Isabel Chávez, que vive nos EUA desde 1982 e que estima que um em cada três colegas de missa agora fica em casa.

A tensão é nítida na rua Mt. Pleasant, onde o espanhol é mais falado que o inglês neste trecho da capital americana. Nos restaurantes com culinária da América Central as pessoas se entreolham quando entra um policial ou estranhos. Nos cafés, supermercados e lojas é possível ouvir conversas sobre situação migratória e medo.

- Nunca vi tanto temor nas pessoas como agora, e vivo aqui há 19 anos - conta a hondurenha Edith Vázquez, de 37 anos. - Estou legal, mas tenho gente muito próxima a mim que não é. O que digo para eles é que evitem qualquer problema, sejam discretos e que, se forem abordados, passem confiança e digam sim, que têm permissão para viver aqui.

Mas os conselhos podem ser difíceis de seguir:

- Tenho pesadelos com a deportação! Não sei pensar o que faria novamente na Nicarágua, ainda mais agora que lá está muito pior, a violência aumentou muito. Se não fosse isso, até pensaria em abandonar tudo aqui. Quase não suporto o medo toda vez que saio para a rua - contou Carlos, um senhor de meia idade que deu um nome fictício.

Erick Langer, professor de História da Georgetown University, afirma que estas idas e vindas de Trump sobre o tema, como nesta semana - quando voltou a defender o muro, mas também acenou com a reforma -, piora ainda mais a situação.

- Ninguém sabe em que acreditar. Até seus secretários parecem perdidos. E isso piora, dá margem a boatos, ao pânico - disse ele.

Ann Lin, professora da Escola Ford de Políticas Públicas da Universidade de Michigan e estudiosa sobre questões migratórias, acredita que isso pode dar ainda falsas esperanças:

- Pelo que ele sinalizou, a reforma beneficiaria pessoas com alta qualificação, ou seja, deixaria de fora a maior parte das famílias - disse ela, reafirmando que não vê muita esperança do avanço da reforma atualmente no Congresso.

Siga-nos no

Google News