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Imigração ilegal vira tema na eleição da África do Sul, e estrangeiros relatam medo

Por Folha de São Paulo

29/05/2024 8h32 — em
Mundo



JOANESBURGO, ÁFRICA DO SUL (FOLHAPRESS) - Da favela de Alexandra, em Joanesburgo, é possível ver os arranha-céus do bairro de Sandton, o equivalente sul-africano à Faria Lima.

A proximidade, além de ser um lembrete do nível da desigualdade social local, atrai para Alexandra imigrantes em situação irregular que buscam algum tipo de trabalho, por mais precário que seja, no principal centro econômico do país.

Como efeito colateral, a favela também se tornou o epicentro de ondas de violência xenófoba nos últimos anos.

Ataques coordenados contra trabalhadores de países como Zimbábue, Moçambique, Maláui e Botsuana ocorreram na região em 2008, 2021 e 2022, além de situações mais pontuais, estas de forma permanente.

Com a crise econômica e o forte desemprego, a imigração foi alçada a um dos principais temas da corrida eleitoral e definirá o comando do país pelos próximos cinco anos. Os sul-africanos vão às urnas nesta quarta-feira (29) e, pela primeira vez, o CNA (Congresso Nacional Africano), histórico partido de Nelson Mandela, pode não conseguir os 50% de votos necessários para controlar o Parlamento e governar sem ter de fazer alianças.

Em seus manifestos eleitorais, praticamente todas as legendas prometem endurecer o controle das fronteiras. Um partido surgido em 2020, o Action SA, foi além e faz campanha com uma plataforma abertamente anti-imigração, embora pontuando abaixo de 5% nas pesquisas.

Há dois anos, um dos alvos de ataques em Alexandra foi o Pan Africa Shopping Center --apesar do nome, trata-se de uma modesta e pouco convidativa galeria numa das entradas da favela.

O mercadinho de Alcindo Nunes, um português da ilha da Madeira que vive no país há 30 anos, foi invadido e destruído. "Entraram aqui, roubaram tudo. Agora está melhor, mas nunca se sabe, pode acontecer outra vez", diz.

Ele hoje conta com segurança privada e protege o local com grossas barras de ferro. Mais importante, evita contratar estrangeiros. "Se você põe empregados que vêm de outros países, tem problema", afirma.

Nunes afirma, no entanto, que a xenofobia é na verdade um pretexto para bandidagem pura e simples. "Os ladrões é que vêm atrás. Eles se aproveitam da situação".

Em 2021, o estopim da onda de violência foi a prisão do ex-presidente Jacob Zuma, hoje principal líder político do partido MK, um dos que desafiam a hegemonia do CNA. Morreram mais de 350 pessoas, a maioria imigrantes.

Em seu manifesto, o partido de Zuma, que tem pontuado na casa dos 10% em pesquisas, diz que o fluxo de imigrantes em situação irregular é uma "ameaça à segurança e pressiona serviços de educação e saúde", além de roubar empregos.

Morando desde 2009 em Alexandra, Lindiwe Tshuma, 34, nascida no Zimbábue, vende produtos de medicina tradicionais africanos numa barraca. Ela diz estar preocupada com possíveis tumultos pós-eleitorais. "Por enquanto está pacífico, mas não sabemos o que vai acontecer depois da votação", afirma.

Tshuma diz que, por ter alguns amigos sul-africanos que a protegeram, nunca sofreu violência. Segundo ela, porém, a boa relação que construiu é algo pontual. "Nós [zimbabuanos e sul-africanos] não nos amamos uns aos outros".

Para a vendedora, a acusação de que os imigrantes são os responsáveis pela alta taxa de desemprego no país, que passa de 30%, é injusta. "Eles dizem que nós roubamos os empregos deles, mas eles é que não querem trabalhar", afirma.

Gildo Zacarias, 29, moçambicano, é um dos imigrantes que apinham as calçadas da favela com barracas de todo tipo de produto. No país desde 2015, vende banana, cana-de-açúcar e castanhas num tabuleiro improvisado.

"Aqui está perigoso um pouco. As pessoas dizem que temos que regressar ao nosso país, mas lá não há trabalho", diz ele, que conta não ter amigos sul-africanos. "Os sul-africanos não gostam dos moçambicanos."

Com a possibilidade inédita de não vencer as eleições sem depender de outros partidos, o CNA também ajustou o discurso sobre imigração -uma mudança significativa para a sigla de Mandela, que pregava conciliação e difundia a imagem inclusiva de uma "nação arco-íris".

Uma das promessas da legenda, que governa a África do Sul desde o fim do apartheid, em 1994, é "regular o emprego de trabalhadores estrangeiros e dar preferência para sul-africanos que busquem trabalho".

Calcula-se que haja atualmente 2,5 milhões de imigrantes em situação irregular no país, numa população de quase 60 milhões. Em Alexandra, no entanto, a proporção é bem maior.

Nos distúrbios de 2021, sul-africanos montaram organizações de justiceiros para coordenar os ataques, inclusive em Alexandra. Desde então, esses grupos foram desarticulados, mas a tensão na comunidade, que abriga cerca de 200 mil pessoas, permanece em alta.


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