PEQUIM — O céu azul deixa ainda mais em evidência os contornos dos escombros, apesar da camada de poeira que persiste no ar após as demolições dos últimos dias, ou do movimento de carros e motos nas ruas esburacadas sem asfalto. Entre pedaços de paredes e cadeiras, cortinas ou sofás abandonados, pouco sobrou de pé das centenas de apartamentos e casas improvisadas, ou não, no distrito de Daxing, a apenas 30 quilômetros do Centro de Pequim. Esta, assim como outras áreas que funcionam como uma espécie de celeiro de mão de obra barata para pequenos serviços prestados na capital, foi esvaziada em poucos dias. O silêncio mudou a cara desses pequenos formigueiros humanos. O que se diz é que, em apenas uma noite, mais de dez mil pessoas teriam sido retiradas das suas casas, todas simples. Lugares onde, em geral, espremem-se muitos, em sua maioria migrantes chineses que saíram do campo em busca de trabalho na cidade grande. Estima-se, extraoficialmente, que cerca de cem mil pessoas tenham sido desalojadas até agora.
As imagens de famílias carregando móveis e malas pelas ruelas destes bairros correram as redes sociais da China semana passada. Mas poucos vieram a público se queixar abertamente por medo de represália. As pessoas são notificadas pela administração municipal e têm poucas horas para deixar o apartamento onde, às vezes, já moram há muitos anos. Os prédios são demolidos em seguida.
— Eu tive de voltar à minha cidade natal, em Harbin, para deixar umas coisas lá. Eles me disseram para sair da minha casa até o dia seguinte, e foi o que tive de fazer. Mas voltei. Meu trabalho está aqui. Não tenho do que viver lá — conta Li, faxineira na capital e que prefere não se identificar.
Em um dos edifícios atingidos pela ação das forças de ordem mês passado, em Daxing, o aviso informava: “Hoje (22 de novembro) a água e luz serão desligadas. Os moradores têm que sair do bairro até as 18 horas de amanhã”. Como muitos são de longe, salvaram o que puderam e foram procurar abrigo com amigos ou parentes nas suas cidades natais. Outros alugaram quartos ou foram para pequenos hotéis nos subúrbios.
As autoridades alegam que a medida foi adotada por razão de segurança, depois que um incêndio em um prédio lotado onde moravam 400 pessoas numa das áreas pobres ao sul da capital matou 19, entre elas oito crianças, no último dia 18. A ação faria parte de uma iniciativa cujo alvo são estruturas ilegais e puxadinhos espalhados pela cidade, alguns sublocados para além da sua capacidade de ocupação original. O secretário do Comitê Municipal do Partido Comunista em Pequim, Cai Qi, enfatizou no último dia 27 que “manter a segurança na capital é a maior responsabilidade política”. “Devemos retirar aquelas ameaças à vida dos cidadãos. Isso é nossa responsabilidade porque nada é mais importante do que a vida dos cidadãos”, disse ele, destacando que iria controlar o ritmo de trabalho e deixar tempo suficiente para que os moradores desses bairros pudessem se organizar.
Os moradores se queixam da velocidade e acusam o governo de usar a questão da segurança como desculpa para retirar os mais pobres da capital, expulsando aqueles que não têm o hukou, permissão de residência e trabalho para morar em Pequim, e cumprir a meta de redução do tamanho da população, hoje em quase 23 milhões de habitantes. Para alguns, também não é coincidência o fato de Daxing estar entre as áreas afetadas. É ali perto, onde os preços dos imóveis continuam subindo, que se pretende construir o novo aeroporto de quase R$ 40 bilhões da capital.
A ação tem causado problemas aos serviços de entrega de Pequim. Boa parte dos motoboys é imigrante e moradora desses bairros. De acordo com o site chinês www.youth.cn, várias empresas estariam paradas.
— Para muitos, acabou o sonho de Pequim, ou ele ficou bem mais caro. Agora, alugar um espaço decente para viver deve passar de mil yuans (cerca de R$ 500) para três mil yuans (quase R$ 1.500). Quem vai conseguir pagar? — perguntou Wen Yang, uma ajudante de cabeleireiro da capital que é solteira e mora em um bairro menos afastado, no distrito de Chaoyang.
Em 2013, o presidente Xi Jinping consagrou a expressão que as autoridades tanto repetem do “sonho chinês”, que é o de construir uma sociedade moderadamente próspera e realizar o rejuvenescimento nacional. Não é isso que os moradores afetados pelas demolições em massa têm sentido.
Em Daxing, uma jovem de classe média que trabalha em um banco afirma que não há como consertar a sua casa após um incêndio que destruiu parte do quarto. O imóvel não foi demolido porque seus pais teriam autorização para viver em Pequim.
— Meu pai pediu a uns dez vizinhos que mexem com obras que fizessem o serviço. Eles disseram não ter ferramentas, nem materiais, porque as lojas estão fechadas — lamenta, lembrando que pequenos comércios e restaurantes foram obrigados a fechar as portas.
Para o especialista chinês Fisher Liu, muitos dos imóveis de fato não tinham mais condições de se manterem como estavam. No entanto, ele lamenta a forma como as ações ocorrem. Liu atribui a velocidade à estrutura burocrática e hierárquica do serviço público chinês.
— A autoridade local recebe a ordem de cima para esvaziar as áreas para que incêndios como aquele nunca mais se repitam. Ela pode dar mais tempo para que as pessoas se preparem. Mas, se algo acontecer, as punições a ela serão muito maiores. Mesmo assim, nada justifica deixar as pessoas na rua em pleno inverno — diz.

