MADRI — Depois de seis décadas de medo, atentados, sequestros e extorsões, que deixaram 829 mortos e dezenas de vítimas que arrastam sequelas físicas e psicológicas, o grupo separatista basco ETA está prestes a desaparecer. O esperado anúncio de seu fim, após quase sete anos de “cessar-fogo definitivo”, está marcado para a próxima sexta-feira, no País Basco francês, na cidade de Cambo-les-Bains, perto de Baiona, onde, há um ano, a organização terrorista anunciou o seu desarme.
Embora se pretenda que seja decisivo, o provável é que o comunicado seja tratado mais como um preâmbulo do que como um desfecho. A ideia, segundo a pouca informação divulgada, é promover no dia 4 um “evento primordial para o avanço da paz duradoura”.
O principal organizador do ato é o chamado Grupo Internacional de Contato (GIC), criado em 2010, como mediador, pelo advogado sul-africano Brian Currin, que presidiu uma comissão de investigação sobre o apartheid aberta por Nelson Mandela na década de 90. O atual representante dos mediadores é o britânico Raymond Kendall, ex-secretário geral da Interpol. “Estamos certos de que veremos mais avanços em um futuro próximo. Acreditamos que haja condições para novos passos relevantes que possam contribuir para avançar em direção ao nosso último objetivo”, reza o texto que pretende antecipar os termos da cerimônia de “fim de ciclo”.
O ato acontecerá duas semanas depois da publicação, no jornal basco “Gara”, de uma carta de pedido de perdão do ETA, que teve grande repercussão e provocou muitas críticas. Na mensagem, a organização terrorista faz distinção entre vítimas e pede desculpas às que não tiveram participação direta no conflito. Nela, Euskadi Ta Askatasuna (País Basco e Liberdade) reconhece a responsabilidade direta pelo “sofrimento desmedido” da sociedade basca, mas, ao mesmo tempo, alega que esse calvário já existia antes de seu nascimento e continuou existindo depois de que o grupo “abandonou a luta armada”.
Com esta carta, o ETA procurava cumprir uma das exigências feitas pelo Ministério de Interior, há um ano, para que o comunicado de desarmamento ganhasse maior credibilidade. O governo de Mariano Rajoy descarta qualquer tipo de contrapartida, como, a anistia ou a concentração dos 297 presos do ETA em penitenciárias do País Basco. Desde que, em 1989, o presidente socialista Felipe González aplicou uma política de dispersão, dificultando, também, a visita de parentes e amigos dos reclusos, a reivindicação de transferência para prisões bascas é constante.
— O ETA persegue objetivos políticos e, agora, usa a propaganda para tentar se apresentar quase como uma ONG. O perdão é uma questão emocional. Não houve perdão. Com uma organização terrorista não se fala sobre sentimentos. Fala-se de justiça. O Estado não deve reagir com uma contrapartida — afirma Rogelio Alonso, autor do recém-lançado livro “A derrota do vencedor”, sobre a política antiterrorista adotada na reta final do grupo, e professor de mestrado em Análise e Prevenção do Terrorismo, da Universidade Rei Juan Carlos.
A expectativa, agora, é que neste ato de dissolução ou de predissolução do ETA se corrijam déficits da carta de perdão sobre o longo período de terror, do qual mais de 300 crimes ainda estão sem esclarecer.
— A batalha da morte foi superada, mas é preciso que fique claro sobre quem é o responsável. Foi o ETA quem desencadeou tudo isso: a morte, o medo e a degradação da vida no País Basco durante décadas — diz o historiador Antonio Elorza, da Universidade Complutense de Madri.
Assumir a culpa, sem buscar justificativas, e desculpar-se por todas as vítimas, e não só por uma parte delas, seria a única maneira, de acordo com especialistas, de tentar construir um futuro minimamente harmônico. Elorza acredita, no entanto, que a convivência dentro do País Basco não vai mudar muito depois da dissolução. De fato, quase metade da população basca (48,3%) admite, segundo o Deustobarómetro, pesquisa da Universidade de Deusto, em Bilbao, que ainda não se sente livre para expressar, em qualquer lugar, suas ideias políticas.
Justamente por dizer o que pensa, Elorza esteve ameaçado de morte pelo grupo, e, morando em Madri, contou, durante quatro anos, com proteção policial. Ele recorda a época em que ninguém o cumprimentava durante suas viagens a Euskadi (País Basco em euskera, idioma basco). Falar com quem estava “marcado” era um risco que dificilmente alguém estava disposto a correr. O historiador percebe que houve uma mudança de atitude nos últimos quase sete anos de cessar-fogo — embora seus 22 parentes bascos continuem sem lhe dirigir a palavra:
— Acho que foi no ano 2000. Em Hondarribia, fronteira com a França, tínhamos uma relação afetuosa entre vizinhos. Era um entorno nacionalista e muitos haviam estado no exílio durante e depois da Guerra Civil. Um dia, uma senhora me parou na rua: “Antonio, me permita que te diga três coisas? Um: me dá pena pelo que vai acontecer contigo. Dois: você é muito inteligente. Três: você faz muito mal a Euskadi.” Ou seja, ela estava me dando um pêsame preventivo. Depois, sua atitude mudou. Há cinco anos, quando meu filho morreu, o ETA já não estava atacando, e esta mesma senhora se aproximou a mim e me disse que contasse com ela para o que necessitasse.
São transformações no convívio, sentidas principalmente nas cidades maiores, que, pelo o que se intui, devem parar por aí. O anúncio do fim do grupo não tem porquê alterar mais o status quo, segundo o economista Mikel Buesa, que teve seu irmão, o socialista Fernando Buesa, assassinado em 2000, depois de dois anos de trégua.
— Enquanto não houver um repúdio social a esta história de violência, a reconciliação só chegará através do esquecimento, que só se alcança depois de muitas gerações. Portanto, a tensão se manterá por muito tempo — opina Buesa.
Uma maneira de retroalimentar a tensão é, além da dor por tantas feridas abertas, a manutenção do objetivo independentista. O cessar-fogo, o desarme e a iminente dissolução do ETA não se traduzem no fim do separatismo, em uma região em que essa causa nunca teve mais que 25% de apoio popular e onde, atualmente, menos de 17% a defendem, embora 31% respaldem o processo de ruptura unilateral da Catalunha com a Espanha. Por outro lado, se há seis meses 49% dos bascos aspiravam à celebração de um referendo de autodeterminação, hoje esta porção caiu para 42%, segundo o instituto de pesquisa da Universidade de Deusto, que desde 2013 realiza estudos sobre a situação social e política do País Basco.
— Sou cético sobre a completa dissolução do ETA. O que eles chamam de “conflito político e histórico com o Estado espanhol” não acabará até que alcancem o que eles denominam de “solução democrática”, que é a independência do País Basco. Como não vai haver independência, o status quo se manterá igual. Não mudará absolutamente nada — avalia Buesa.

