WASHINGTON — Em depoimento ao Senado americano, o psicólogo da Universidade de Cambridge Aleksandr Kogan, que se tornou conhecido em todo o mundo por ter se envolvido na coleta de dados de 87 milhões de usuários do Facebook, negou que essas informações possam ter sido utilizadas em processos eleitorais. Segundo ele, a ideia de que os dados possam ter influenciado a decisão de votos de eleitores é “ficção científica”.
— As pessoas podem se sentir zangadas e violadas se pensarem que seus dados foram utilizados em algum tipo de projeto de controle da mente — afirmou o pesquisador, nesta terça-feira, segundo o “Guardian”. — Isso é ficção científica. Os dados são inteiramente ineficazes.
O depoimento de Kogan diante dos senadores americanos acontece três meses após a revelação de que ele teria participado da criação de um aplicativo para a coleta de dados pessoais de usuários do Facebook, que foram repassados para a Cambridge Analytica, firma de consultoria política dissolvida após o escândalo.
O caso tomou proporções internacionais não apenas pelo vazamento de dados de 87 milhões de pessoas, mas pela suspeita de que essas informações teriam sido utilizadas para influenciar eleitores na campanha presidencial americana de 2016 e em pleitos em outros países, incluindo o plebiscito que determinou a saída do Reino Unido da União Europeia.
Na época da revelação, Kogan negou qualquer possibilidade do uso dessas informações para fins políticos e disse que estava sendo usado como bode expiatório, já que seu aplicativo funcionava como qualquer outro, seguindo as regras permitidas pelo Facebook. Durante o depoimento desta terça-feira, o pesquisador manteve o argumento, defendendo, com base na ciência da psicometria, que a Cambridge Analytica era incapaz de influenciar eleições.
— Se o objetivo da Cambridge Analytice era exibir anúncios personalizados no Facebook, o que eles fizeram foi estúpido — comentou, explicando que qualquer campanha publicitária é muito mais eficaz se usar as ferramentas de segmentação do próprio Facebook.
A pesquisa realizada por Kogan segue estudo publicado por seus ex-colegas do Centro de Psicometria em Cambridge, que publicaram estudo que demonstra como as “curtidas” no Facebook podem prever uma série de traços psicológicos. Mas como esses traços podem ser traduzidos em publicidade psicologicamente direcionada é algo complexo e controverso, com muitos cientistas céticos em relação a essa possibilidade.
O psicólogo aproveitou o espaço para fazer críticas à natureza viciante do Facebook.
— Eu acho que está muito claro que o negócio do Facebook é tentar te manter no Facebook o máximo possível — afirmou. — O modelo vai contra não apenas a nossa privacidade, mas o nosso bem estar.
Desde o escândalo, o Facebook implementou uma série de medidas para aumentar a privacidade dos usuários, mas pelas manifestações durante a audiência de Kogan, alguns parlamentares americanos desejam mais.
— Os americanos não merecem menos privacidade que os europeus — apontou o senador democrata Richard Blumenthal, em referência ao Regulamento Geral de Proteção de Dados adotado pela União Europeia.

