BENIN - Era abril quando Loveth deixou sua casa, no Sudoeste da Nigéria, tentando fugir das incestuosas investidas do pai. A jovem, de 20 anos, contou que pagou US$ 24 mil (cerca de R$ 75 mil) a um contrabandista para que a levasse primeiro à Líbia, local a partir do qual cruzaria o Mediterrâneo em direção à Europa, continente onde pretendia trabalhar como prostituta para poder sustentar o filho, na época com 2 anos.
No entanto, após chegar à primeira parada, ela foi sequestrada, estuprada e vendida para outro traficante. O sequestrador afirmava ser necessário que a jovem atuasse como prostituta por cinco anos para que pudesse voltar a ser livre. Loveth conseguiu escapar, e meses depois estava em um voo fretado pelas Nações Unidas de volta à Nigéria. Ela faz parte do grupo de milhares de nigerianos mandados de volta para casa em 2017, vindos da Líbia, como parte de uma grande iniciativa internacional de resgate a imigrantes reféns do sequestro e tráfico de seres humanos.
Mesmo a volta para casa não é um retorno agradável. Sobreviventes e especialistas dizem que a pressa para que os nigerianos retornem não é o suficiente para quebrar o ciclo envolvendo a escravidão sexual, que pode, inclusive, estar sendo perpetuada. Ao retornar ao país de origem, os ex-reféns são jogados no epicentro da indústria do tráfico sexual, geralmente endividados e com menos opções do que as que tinham antes de partir.
— À medida que as imagens da escravidão moderna existente na Líbia põem à prova a consciência dos nossos líderes políticos, essa questão acaba por ser reconhecida como parte de um problema sistêmico maior — ressalta Leonard Doyle, porta-voz da Organização Internacional para as Migrações (OIM), que faz parte da ONU.
A discussão a respeito da indústria do tráfico sexual no Oeste do continente africano tem uma tendência a ser deixada de lado, acrescenta Doyle. Apenas no mês de dezembro, a OIM resgatou mais de dois mil homens e mulheres nigerianos que estavam na Líbia, mais do que o dobro documentado em 2016. No último ano, a organização foi responsável pelo resgate de 6.700 nigerianos no mesmo país, além dos 300 que puderam retornar aos seus países em 2018.
O número de nigerianas traficadas para a Líbia é muito superior ao das que conseguem retornar. Entre os anos de 2014 a 2016, houve um aumento de 600% nos casos de escravidão sexual, de acordo com a OIM.
Mais de 80% das que voltam para casa são do estado de Edo, onde eram comercializadas em um velho motel da capital, Benin. Assim como a maioria das localidades na Nigéria, esse estado sofre com intensa pobreza, corrupção, desemprego, falhas no sistema educacional e no desenvolvimento econômico.
A Nigéria evoluiu o suficiente para se tornar uma das maiores economias do continente africano, embora a desigualdade social também tenha aumentado. As mulheres de Edo trabalham como prostitutas na Europa, de forma voluntária ou forçada, há gerações — a renda obtida, enviada ao país de origem, também sustenta a economia local.
Autoridades já testemunharam várias vezes famílias submetendo suas filhas ao tráfico, para se beneficiar com o lucro obtido por elas, ação que sinaliza o quão enraizada nas estruturas sociais locais está a prática do trabalho sexual.
— Quando você quer prender traficantes sob justificativa de que uma garota está sofrendo na Líbia, você prende a mãe também? — questiona Mercy, uma policial cuja declaração foi feita na condição de anonimato parcial, para não sofrer retaliação.
A maioria das cafetinas por trás dos maiores redutos de prostituição nigerianos são senhoras que no passado foram escravas sexuais. As mulheres representam mais de 40% dos traficantes condenados, segundo a Agência Nacional de Combate ao Tráfico de Pessoas (NAPTIP, sigla em inglês), principal órgão nigeriano contra a o tráfico de seres humanos.
Tessa, 32 anos, tentou duas vezes viajar para a Europa, mas logo desistiu. Em uma delas por descobrir que seria forçada a trabalhar como prostituta e na outra o seu guia a impediu de chegar ao deserto da Líbia. Novamente desempregada em Benin, ela exerceu o cargo de “agente de viagem”, no qual acompanhava garotas até o Norte da Nigéria, para entregá-las a outro contrabandista. Há pouco mais de um ano, ela abandonou essa função.
Somente algumas mulheres e garotas conseguem chegar ao Velho Continente, onde outros imigrantes vindos de Edo e demais regiões da Nigéria conseguiram alguma atividade remunerada. Muitas outras ficam presas na Líbia, onde grupos armados sequestram e escravizam imigrantes, vendendo-os ou liberando-os apenas após pagamento de resgate.
As mulheres são habitualmente forçadas a trabalhar como prostitutas para quitar dívidas quase inesgotáveis apresentadas pelos traficantes. Atualmente, a OIM estima que há entre 700 mil a um milhão de imigrantes na Líbia, em sua maioria vivendo em cativeiro.
No último ano, a recente inquietação sobre o tráfico de escravos no território líbio repercutiu em um novo debate quanto aos possíveis responsáveis pela existência da atividade. A resposta da Europa para a crise migratória foi a de pagar países africanos para que mantivessem os imigrantes longe dos limites geográficos europeus. A Líbia é o principal ponto de partida dos imigrantes para chegar à Europa. O governo apoiado pela União Europeia em Trípoli, capital do país, ainda não controla totalmente a região.
O presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, criticou a Líbia por sua participação na crise, embora o seu país esteja enfrentando a sua própria epidemia de tráfico de seres humanos. Desde que foi criada em 2003, a NAPTIP já resgatou aproximadamente 12 mil vítimas. Além disso, a organização foi responsável pela prisão de cerca de quatro mil suspeitos de tráfico de pessoas, porém apenas 334 foram processados.
Em 2015, o governo nigeriano promoveu uma série de mudanças para aperfeiçoar o combate ao tráfico de seres humanos, sugerindo que os juízes, por exemplo, condenassem os culpados à prisão, em vez de sentenciá-los ao pagamento de multas.
— Na Nigéria, a garota é livre, mas não há comida. Já na Líbia, ela come frango todo santo dia — argumenta Sonny, morador de Benin, ao descrever como atuou por mais de uma década como traficante. Questionado sobre a quantidade mínima de tempo para que uma garota consiga finalmente pagar a sua dívida com o seu traficante, ele respondeu que “não há” possibilidade de quitação.
Quando as vítimas voltam à Nigéria, o governo não consegue atuar na prevenção para que não sejam levadas novamente.
— Eu estava feliz por ter deixado a Líbia, mas não estou por estar de volta — afirmou Loveth, sentada em uma cadeira de plástico na parte externa de um hotel, com a pequena barriga em seu corpo magro indicando os primeiros sinais de gravidez, resultado de uma das vezes em que foi estuprada na Líbia. Após ser informada por médicos de que era muito tarde para fazer um aborto, acabou decidindo ter o bebê e dar para adoção.

