BUENOS AIRES — Após dez anos de governo de Rafael Correa, o Equador deverá eleger neste domingo um novo chefe de Estado, optando entre duas alternativas diametralmente opostas. Se o vencedor de uma das disputas mais acirradas das últimas décadas for Lenín Moreno, ex-vice de Correa e candidato da governista Aliança País, o país, segundo analistas locais, dará continuidade à chamada revolução cidadã, com pequenas mudanças, mas mantendo a essência do modelo construído pelo atual presidente. Já o ex-banqueiro Guillermo Lasso representaria uma renovação profunda em termos políticos, sociais e econômicos, com iniciativas como a saída do Equador da Aliança Bolivariana para Américas (Alba) e um pedido de incorporação à Aliança do Pacífico (formada por México, Chile, Peru e Colômbia).
O futuro do Equador é incerto. As únicas semelhanças entre os candidatos, coincidiram analistas, é que, em caso de serem eleitos, governarão um país mergulhado na recessão econômica e sem a liderança, carisma e concentração de poder que teve Correa. Mesmo Moreno seria um chefe de Estado fraco, apontou Francisco Burbano, da Faculdade Latino-americana de Ciências Sociais (Flacso).
— Vejo Lenin como um presidente de liderança cinzenta, opaca, sem identidade. Ele não é um caudilho como Correa — disse Burbano.
O candidato da aliança governista, cadeirante desde a década de 90 quando sofreu um assalto violento, tem um estilo totalmente diferente ao do atual governante. Moreno se destaca por sua serenidade e insiste na necessidade de dialogar com todos os setores políticos e sociais, se contrapondo ao discurso agressivo de Correa.
— Moreno teria uma bancada majoritária no Parlamento, mas não o controle absoluto como tem hoje o presidente. Acho que ele manteria as leis centrais do correísmo, como a Lei de Comunicação e as leis econômicas — disse o analista da Flacso.
O ex-vice herdaria, além de uma pesada crise econômica, um clima de profundo mal-estar entre empresários, sindicatos, associações civis e ONGs de defesa dos direitos ambientais e indígenas. Todos, lembrou Burbano, “foram alvo de medidas negativas por parte de Correa”. As liberdades e direitos civis continuariam limitadas, opinou o analista Simón Pachano.
— A Lei Mordaça, que restringe a liberdade de expressão, seria mantida por Moreno. Já Lasso pretende revogá-la. Acho que com Moreno teríamos mais conflitos sociais e um presidente com menos margem de manobra para enfrentá-los, pelas pressões do correísmo — explicou Pachano.
O papel de Correa, na visão do analista, também seria diferente nos dois cenários possíveis:
— Com Moreno, o atual chefe de Estado continuará exercendo forte influência. Com Lasso à frente, ele seria o líder indiscutido da oposição.
Se Lasso derrotar o correísmo, o atual presidente poderia enfrentar graves problemas nos tribunais. Além de denúncias de corrupção, o chefe de Estado e seu governo foram alvo, nos últimos anos, de denúncias de violações dos direitos humanos e até mesmo de terem cometido delitos de Lesa Humanidade. Na revolta militar de 30 de setembro de 2010, Correa refugiou-se num hospital de Quito, e existem denúncias que asseguram que o presidente autorizou as forças policiais a dispararem contra a clínica para resgatá-lo.
Foram essas denúncias que levaram o jornalista Emilio Palacio, na época do “El Universo”, a escrever uma coluna na qual recomendou a Correia anistiar os policiais para evitar, ele mesmo, acusações de ser o responsável de crimes de Lesa Humanidade. O presidente processou Palacio, há seis anos exilado nos EUA.
Durante a campanha eleitoral, Lasso prometeu uma ampla reforma da Justiça e, principalmente, “devolver a independência aos juízes e tribunais”. Em meio a uma enxurrada de denúncias contra Correa e aliados, entre eles o atual vice Jorge Glas, companheiro de chapa de Moreno, a possibilidade de vitória do opositor preocupa o governo.
— Com Lasso, as mudanças seriam maiores e profundas, passando pela Justiça, meios de comunicação, direitos civis e também em termos econômicos. Uma das primeiras coisas que ele faria seria promover incentivos para os empresários como estratégia para superar a crise — disse o consultor político Pipo Lasso (que não é parente do candidato).
POLARIZAÇÃO E CONFLITOS SOCIAIS
Para ele, com Lasso haveria polarização e conflitos sociais, promovidos pelo correísmo. Mas o desejo de mudança é majoritário no país, e a tensão seria maior com Moreno:
— O candidato da oposição iniciaria, rapidamente, um processo de abertura da economia, renegociação de dívidas e reaproximação a blocos e países dos quais Correia se distanciou.
Já Moreno, apontou Lasso, manteria o esquema de alianças internacionais de Correia, talvez com um discurso menos ideológico, mas sem romper com os tradicionais parceiros do Equador.
Sem a bonança econômica dos primeiros anos de Correia — financiada pelo alto preço do petróleo —, o sucessor terá grandes desafios pela frente. O ajuste, dizem analistas, será inevitável. Ambos se comprometeram a manter programas de ajuda social, mas no caso de Lasso, a tendência seria reduzir a presença do Estado na economia e na sociedade.
— O candidato da oposição tem uma clara sintonia com o setor privado e acredita que a economia se recuperará com a criação de postos de trabalho. Para isso dará incentivos às empresas, algo que Moreno sequer cogita — concluiu Pachano.

