BUENOS AIRES Em 2010, a presidente do Chile, Michelle Bachelet, encerrou seus primeiros quatro anos à frente do Palácio de la Moneda com 80% de popularidade. No próximo dia 19 de novembro, os chilenos irão às urnas para eleger o sucessor da atual chefe de Estado cuja imagem positiva, neste momento, alcança, no melhor dos casos, 30%. Bachelet já ganhou um lugar de destaque na História chilena ao tornar-se a primeira mulher em eleger-se presidente e, também, o primeiro chefe de Estado em conquistar um segundo mandato. Mas as enormes expectativas geradas por seu retorno ao poder, há quase quatro anos, terminaram se tornando seu maior problema. As promessas, entre outras, de reformar a Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) e implementar um sistema de educação universitária gratuito e universal não foram cumpridas. Segundo analistas locais ouvidos pelo GLOBO, os fracassos serão, em parte, compensados por conquistas sociais de peso como a autorização do aborto (quanto estiver em risco a vida da mãe, em casos de estupro e se o feto for inviável) e união civil entre homossexuais. Mas o saldo, sem dúvida, será negativo.
O fraco desempenho de Bachelet, de 66 anos, explica, em grande medida, o provável retorno à Presidência do empresário Sebastián Piñera, de 67, que governou o Chile entre 2010 e 2014. A presidente não só decepcionou seus eleitores como, também, terminou provocando a maior crise já sofrida pela centro-esquerda chilena desde a redemocratização do país, em 1990. Pela primeira vez, desde então, a hoje chamada Nova Maioria (antiga Concertação entre socialistas e democratas cristãos) não irá unida a uma eleição presidencial. No próximo dia 19, a centro-esquerda chilena terá quatro candidatos presidenciais, fragmentação que, obviamente, beneficiará Piñera, o grande favorito.
— A grave incógnita desta eleição é saber se a centro-esquerda conseguirá impedir a vitória do ex-presidente no primeiro turno e unir-se num eventual segundo turno. É um cenário inédito, fruto do racha sofrido durante o segundo mandato de Bachelet — opinou Patricio Navia, professor das universidades de Nova York e Diego Portales, em Santiago.
Para ele, “Bachelet ainda é muito querida no Chile, muito mais do que Piñera. O problema é que muitos chilenos perderam a confiança na presidente e seu antecessor, apesar de carecer de carisma, é visto como um chefe de Estado mais eficiente”. A perda de confiança na presidente também está muito relacionado ao chamado “noragate”, o escândalo de corrupção envolvendo Natalia Compagnon, nora de Bachelet, que veio à tona pouco depois do início de seu segundo mandato. Natalia foi denunciada na Justiça por ter obtido acesso privilegiado a informações que lhe permitiram realizar negócios imobiliários milionários através de uma empresa da qual é sócia.
— Bachelet venceu em 2013 prometendo acabar com abusos de poder e sua nora, quase imediatamente, apareceu justamente abusando do poder da família. A decepção foi enorme — assegurou Navia.
Desde o começo de sua carreira política, quando ainda era ministra da Defesa do governo Ricardo Lagos (2000-2006), a presidente sempre privilegiou o contato direto com a sociedade, dando pouca importância ao papel dos partidos políticos. Essa característica acentuou-se em seu segundo mandato e, de acordo com analistas, terminou acelerando o fim da antiga Concertação.
— Bachelet governou sem os partidos como sócios. Seus projetos de reformas mais importantes foram enviados ao Parlamento sem discussão prévia e assim, gradualmente, a Concertação foi chegando ao fim — explicou Guillermo Hollzman, professor da Universidade do Chile.
Para ele, embora abaixo do esperado, a presidente conseguiu avançar em matéria de educação, tributos e sistema eleitoral. Em sua segunda campanha, Bachelet prometeu educação universitária gratuita e universal aos estudantes chilenos, que tanto ruído fizeram em seu primeiro mandato. Mas a reforma ficou pela metade.
— Avançamos em matéria de gratuidade, mas a reforma não é universal. Não foram incluídos todos os estudantes, nem todas as universidades — disse Hollzman.
De fato, o governo exige uma série de condições a estudantes e instituições universitárias para incluí-los nas novas regras implementadas após a aprovação da reforma. Outra dívida que fica para futuros governos é o debate sobre a qualidade da educação, demanda central dos estudantes que ainda não foi atendida.
— Acho que a marca registrada deste segundo governo serão as conquistas sociais do aborto e união civil para casais gays — apontou o professor da Universidade do Chile.
A frustração deixada pelo segundo governo Bachelet, somado à falta de entusiasmo pelos candidatos à sucessão, poderia levar o país a bater um novo recorde em matéria de abstenção eleitoral.
— Bachelet teve a possibilidade de fazer grandes transformações e não as fez. Seu governo teve iniciativas histórias em matéria de direitos civis, mas não mexeu na estrutura econômica do Chile, por compromissos com as elites — lamentou Federico Galende, Diretor da Faculdade de Filosofia e Arte da Universidade do Chile.
Para ele, “no caso da educação, a reforma aplicada não tem nada a ver com o que vinha sendo pedido pelos estudantes”.
— Incluíram universidades privadas no sistema de gratuidade e, assim, o Estado passou a transferir recursos para o setor privado. Em contrapartida, universidades públicas foram excluídas por não cumprir algumas condições — explicou Galende.
A revista Forbes elegeu recentemente a presidente como a quarta mulher mais poderosa do mundo, mas em seu país Bachelet está em baixa. Diante da crise em que mergulhou a centro-esquerda, a presidente esteve ausente da campanha e evitou mostrar sua preferência pelo candidato que tem mais chances de disputar um eventual segundo mandato, o senador, jornalista e ex-apresentador de TV Alejandro Guillier. A mãe da presidente, Angela Jeria, que, como Bachelet, foi sequestrada pela ditadura de Pinochet, tem promovido o voto por Guillier. Mas a chefe de Estado optou pelo silêncio, interrompido, apenas, para dizer que seu governo fez muito mais em matéria social do que o de seu sucessor. O Palácio de la Moneda não perdeu as esperanças de que, juntos, os candidatos de centro-esquerda consigam impedir a volta de Piñera.

