Início Mundo A verdadeira Primavera Árabe saudita
Mundo

A verdadeira Primavera Árabe saudita

Quando o príncipe herdeiro da Arábia Saudita, Mohammed bin Salman, arrebatou 500 cabeças da realeza e de bilionários no fim de semana passado e as colocou em confinamento de luxo, era mais do que apenas uma tomada de poder por um jovem com pressa. Foi uma revolução. Mas de que tipo?

Mohammed, conhecido como MBS, tem 32 anos. Ele se parece com um príncipe árabe dos livros de contos de fadas e fala como um progressista. Diz que planeja liberalizar e modernizar sua sociedade, expandir os direitos civis das mulheres, reduzir o poder econômico da indústria saudita de combustíveis fósseis e afrouxar o domínio do clube dos primos reais de cinco mil membros que sangrou o país por gerações.

Ele criou inimigos na aristocracia saudita, sua classe bilionária e seus parceiros comerciais estrangeiros, que em algum momento buscará vingança. Ele também trancou alguns altos clérigos. A família Saud historicamente obteve seu status de Protetora de Meca de sua aliança com a seita islâmica ultraconservadora wahhabi. O reino está cheio de jovens discípulos que não aceitarão gentilmente o silêncio de seus pregadores jihadistas (é verdade, entretanto, que o príncipe mostrou uma inclinação menos esclarecida, ao reprimir defensores dos direitos humanos e acadêmicos.)

O príncipe também enfrenta uma ameaça do Irã. Esta semana, o presidente Hassan Rouhani advertiu que uma aliança saudita com os EUA e o “regime sionista” de Israel seria um “erro estratégico”. Uma vez que os EUA têm sido aliados dos sauditas há décadas, isso soou como um aviso redundante.

Não foi. Adicionar “sionistas” à equação a tornou uma ameaça de morte. A colaboração aberta com Israel pelos chefes de Estado árabes é uma espécie de ameaça à vida. No início da década de 1950, o rei Abdullah I, da Jordânia, foi assassinado em Jerusalém por supostamente falar sobre paz. Em 1981, depois de assinar o acordo com Israel, Anwar Sadat foi morto a tiros por extremistas islâmicos num desfile militar no Cairo. No ano seguinte, Bashir Gemayel, o presidente eleito do Líbano, foi assassinado com uma bomba em Beirute, presumivelmente por agentes sírios.

Esta dinâmica, por sinal, explica o silêncio de Israel sobre as manobras de MBS. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu está encantado com o surgimento de um novo líder árabe que compartilha sua visão do Irã.

Vamos ser otimistas. Suponhamos que o príncipe Salman sobreviva aos assassinos iranianos, à ira de seus primos e à oposição ardente dos clérigos jihadistas — que ele se eleve ao trono e implemente suas reformas internas. Conceder às mulheres direitos civis iguais, permitindo que os teatros e os cinemas se abram, eliminando as mesquitas mais inflamadas, diversificando a economia — é, como Faissal Abbas, editor do “Arab News”, escreve, uma perspectiva emocionante.

Mas ainda há a questão das ambições mais amplas de MBS. Ele deixou claro que considera o Irã um inimigo mortal. É igualmente claro que quer liderar uma coalizão árabe sunita que possa enfrentar Teerã e acabar com sua agressão regional. É um objetivo digno, mas não realista.

O príncipe herdeiro é o comandante em chefe do Exército. Ele sabe que é uma força de combate de terceira categoria, incapaz de derrotar até as milícias houthi no Iêmen, muito menos o Irã e seus aliados. Seu pai e reis anteriores foram governantes idosos, cautelosos e focados na autopreservação. A força de luta mais impressionante do reino é a Guarda Nacional, cujo principal papel é a proteção da família real.

MBS seguirá com prudência os passos de seus antecessores ou será seduzido por sonhos de restaurar a antiga tradição guerreira da família? Eu voto na opção número um.

Um jovem rei enérgico e liberalizante na Arábia Saudita seria algo muito bom para o Oriente Médio. Ele poderia ser um aliado importante na guerra internacional contra o terror islâmico e um excelente modelo para outros aspirantes a revolucionários árabes. Seria uma vergonha desperdiçar esse potencial em aventuras militares apressadas. Ele precisa levar o Golfo ao mundo moderno, não ficar atolado em uma Baía dos Porcos iraniana.

Siga-nos no

Google News
Quer receber todo final de noite um resumo das notícias do dia?