RIO E HAVANA - Poucos minutos após o anúncio da morte de Fidel Castro, por volta da meia-noite, a movimentação natural de uma sexta-feira deu lugar ao silêncio nas ruas de Havana. Não porque os jovens, que tiveram que deixar bares e clubes noturnos, estivessem muito impactados pela notícia — a maioria nasceu bem depois do auge da Revolução Cubana — mas porque as portas fecharam mais cedo. O Malecón, a avenida à beira mar, geralmente muito movimentado, ficou rapidamente deserto. Na turística Habana Vieja, o efeito foi o mesmo: portas fechadas e muita gente na rua, digerindo a informação. Em vários pontos da cidade, a venda de bebida alcoólica foi suspensa.
Marco Antonio Díaz, um lavador de carros de 20 anos, estava em uma festa quando, de repente, a música parou.
— Ouviu dizer: “Fidel morreu.” A festa acabou repentinamente. Voltei para casa e acordei todo mundo: “Fidel morreu.” Minha mãe ficou pasma — contou.
Pelas avenidas da cidade, circulavam apenas alguns carros particulares, táxis e muitos policiais — em número bem maior do que o normal. Após o anúncio oficial na TV estatal, alguns cubanos continuavam em busca de notícias. Alguns arriscavam o acesso à internet, ainda muito precário na ilha. Outros saíram às ruas com o rádio na mão, pedindo a vizinhos mais detalhes.
Ernesto Rosali, cubano que mora com a família em uma casa em Centro Habana, foi um dos surpreendidos com a informação repentina. Ele e toda a família ficaram acordados até às 4h. Blanca Cabrera, dona de casa de 56 anos, também recebeu a notícia com surpresa. Assim que se recompôs do choque, saiu ao jardim de sua casa, visivelmente abalada.
— A gente custa a acreditar que Fidel partiu, mas tivemos a alegria de que nos acompanhasse por muitos anos. Isso alivia a dor.
Crítica ferrenha do sistema, a jornalista Yoani Sánchez escreveu, no Twitter, que as primeiras sensações captadas por ela em Havana foram de “indiferença”. A blogueira usou a rede social para descrever o clima na capital durante toda a madrugada.
“Um país de silêncios neste sábado. Tantos rumores sobre sua morte que a gente se acostumou. Alguns o enterraram em vida”, tuitou a dissidente. “A História dirá a última palavra, mas meus netos não escutarão seus discursos intermináveis.”
Os meios de comunicação cubanos, que por iniciativa de Fidel passaram às mãos do Estado ainda na década de 1960, demoraram a reagir. Os poucos jornais não chegaram às bancas no horário de costume e a cobertura da TV estatal foi marcada por nervosismo e problemas técnicos. A programação da noite incluiu uma maratona com documentários e programas dedicados a recontar a vida do líder cubano.
— Para mim, ele já era história — contou uma jovem de 18 anos. — Os mais velhos às vezes falavam dele.
Líder das Damas de Branco, a ativista Berta Soler denunciou o aumento da repressão.
— Não celebramos a morte de ninguém, mas estamos alegres por termos um ditador a menos em Cuba — disse ao GLOBO, por telefone, de Havana. — Infelizmente, acho que a repressão vai ser ainda maior. Muitos ativistas de direitos humanos já começaram a ser detidos porque o governo teme manifestações durante a semana de homenagens. Não vamos chorar, mas tampouco temos a intenção de criar dificuldades a eles. Sabemos que amanhã (hoje) todas as Damas de Branco que saírem para protestar serão detidas.
Assim como todo o mundo, o país também se dividia entre os que idolatravam o revolucionário e os que comemoraram sua morte. Muitos cubanos mais velhos, que costumam ter uma relação mais próxima com a revolução, pareciam inconformados.
— Eu nasci com esta revolução e, de verdade, sinto tristeza, porque ele foi um homem único, com seus defeitos, com suas virtudes. É uma perda grande e é um homem que nem os amigos nem os inimigos vão esquecer — contou Micaela Consuegra, uma varredora de ruas de 55 anos.
Mas muitos jovens fazem parte do grupo que comemorou a morte do ex-líder cubano.
— Amigos, Fidel morreu. E eu estou muito feliz — disse um adolescente para um grupo de turistas.
Outro resistia à pressão da polícia e bebia uma cerveja sozinho sentado na mureta do Malecón:
— Queria estar em Miami comemorando.
Depois da madrugada atípica, Cuba amanheceu silenciosa. Na tradicional Rua Obispo não se via grupo algum dançando salsa na calçada ou tentando conseguir moedas dos turistas, como de costume. O único som que prevalecia era de conversas esparsas e de alguns cubanos dentro lojas, que tentavam vender qualquer lembrança para quem passasse. Desta vez, o comércio abriu normalmente.
Mas o assunto principal do dia era quase proibido. Dois motoristas de bicitáxi — veículo bem comum na ilha — afirmaram que não poderiam comentar a morte do líder por medo de serem repreendidos.
— Tem polícia por toda parte — confidenciou um deles.
Pequenos grupos de cubanos se formam para falar baixo sobre o assunto nas ruas, principalmente idosos. As bandeiras estavam a meio mastro.
“‘Disso não falamos’, parecem dizer os rostos com que tropeço nas ruas cubanas”, tuitou Yoani.

